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Culto, devoção e afirmação

01/10/2011

(Foto: Daniel Pinto )

Apesar de já ocuparem o território amazônico há mais tempo, os primeiros registros das comunidades negras no Pará são do século XIX e o primeiro terreiro do qual se tem documentação em Belém é o terreiro da Mãe Doca, localizado então no bairro do Guamá. Maranhense, ela migrou para o Pará durante o auge da economia da borracha e trouxe o primeiro tambor de mina. Por desafetos familiares o local deixou de existir, mas deixou um legado que se espalhou por todo o Estado, alcançando mais de 1.300 terreiros no Pará.

Segundo as doutoras em antropologia Taíssa Tavernard e Daniela Cordovil, do programa de pós-graduação do curso de Ciências da Religião da Universidade do Estado do Pará, integrantes do Grupo de Estudos de Religiões de Matriz Africanas na Amazônia (Germaa), até 1930 todos os terreiros de Belém eram de tambor de mina. Somente com o intercâmbio de pais de santo para o Rio de Janeiro e Bahia chegaram ao Estado as primeiras intenções de reproduzir os rituais da Umbanda e do Candomblé. Os dois tipos de manifestações culturais ainda demoraram a se consolidar e somente a partir da década de 70 conseguiram estabelecer seus terreiros e atrair maior número de participantes.

Apesar das distinções, que incluem a condução dos rituais e as origens étnicas africanas, as professoras explicam que há um sincretismo grande entre as religiões. “Muitas vezes vemos um ritual que se autodenomina Candomblé, mas utiliza elementos da Mina e comportamento da Umbanda. Elas transitam, compartilham elementos e têm em comum o transe como forma de interação com o sagrado”, explica Daniela.

Referências na inter-relação entre as diferentes religiões africanas, pai Tayandô explica que o sincretismo deve ser feito com sabedoria. “É importante saber que cada elemento tem uma expressão específica, o seu espaço no terreiro e na liturgia. Cada terreiro é uma célula ligada a um corpo grande, mas que age de forma independente”, frisa.

Atuante desde os 4 anos de idade, ele já contabiliza 168 filhos de santo, entre vivos e mortos. Seu terreiro, no bairro de São Brás, é visitado por diferente camadas sociais e foi cenário até de documentários interna-

cionais. Mesmo assim, ele admite que o preconceito ainda existe, mas dá sua receita: “Sempre mantive uma harmonia e respeito com os vizinhos. Fazemos trabalhos sociais, como cineclubes, e participamos de programas de assistência, como o Fome Zero. Assim as pessoas começam a entender melhor nossos valores”, diz.

Segundo as antropólogas Taíssa Tavernard e Daniela Cordovil, a luta que antes era contra a perseguição governamental hoje é por direitos, reconhecimento e respeito. “O poder público precisa garantir políticas públicas voltadas à comunidade negra e a sociedade deve se abrir ao diálogo, respeitando as diferenças”, afirma Daniela.

Conhecimento espiritual foi o que trouxe satisfação à dentista Vera Bitar. “Às vezes pensamos tanto em conquistas materiais e carreira que esquecemos de nos voltar às origens”, diz ela, que se iniciou no tambor de mina e integra os rituais de um terreiro indicado por um amigo. “Segui meu espírito e alcancei meus anseios mais profundos”.

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