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Personagens que ganham o dom da vida eterna

25/11/2011

A tarefa de contar histórias é simples e pode ser feita por qualquer pessoa. A partir daí, surgem os mitos, as lendas. As narrativas folclóricas amazônicas dão suporte ao acervo literário paraense. As crianças são as principais responsáveis pela perpetuação dessas histórias.

A fascinação continua mesmo com o avanço tecnológico. Os contadores de histórias contribuem para que a magia - envolta em personagens e contos - não se perca no tempo. “É preciso passar o legado às gerações futuras. Quando uma história cai no gosto popular, vira real”, afirma Antônio Juraci Siqueira, contador de histórias. “Nem toda a tecnologia pode matar a magia que tem na voz de um contador”, recita. Ele considera que o povo da Amazônia tem uma forma diferente de narrar o que presencia. “Contar histórias faz parte da identidade cultural amazônida. A nossa região é um lugar onde elas são contadas em primeira pessoa. A gente conta o que viveu ou recria o relato de algum conhecido”.

Essa oralidade se incorpora à linguagem escrita como influência da cultura local sobre a arte dos escritores paraenses. De acordo com Paulo Nunes, doutor em Literatura de Língua Portuguesa, a tradição amazônica está imersa nesse mundo da fala.

“Decisivamente somos uma cultura fundada no oral. As matrizes indígenas e africanas se fundiram aqui com toda uma gama de imaginário dos portugueses. Em suma, somos uma cultura da fala; adoramos ser emprenhados pelos ouvidos”, avalia. “Se você pega alguns de nossos grandes autores, isso fica mais evidente: Inglês de Sousa, José Veríssimo, Benedicto Monteiro, Eneida e Dalcídio Jurandir são exemplos clássicos. Se pudermos falar de uma literatura paraense, amazônica, ela tem uma dimensão oralizante fabulosa. Dalcídio Jurandir é mestre nisso. Você vê lá em sua literatura recortes de lendas e mitos amazônicos, de matriz oral indígena, africana, portuguesa, cabocla. Se lermos ‘Três Casas e um Rio’, por exemplo, ele deita e rola na beleza do texto mítico marajoara”, exemplifica.

TRANSCENDÊNCIA

Para Nunes, o “patrimônio” da oralidade tem raízes entranhadas nas narrativas dos escritores da terra. “É imensa a importância. Nossos ‘autores literários’, se podemos dizer assim, fazem bem em optar por reapropriar-se da máxima ‘quem conta um conto aumenta um ponto’. Na seara do poema, não podemos esquecer de João de Jesus Paes Loureiro e o belo livro ‘Remo Mágico’, bem como do conto fabuloso do escritor marabaense Augusto Morbach, que transformou em quadrinhos a lenda da Cobra Norato, estudada em dissertação de mestrado pela professora Josse Fares”, lembra Paulo Nunes.

O pesquisador aponta ainda dois nomes ilustres do cenário nacional. “Mário de Andrade, com Macunaíma, e Raul Bopp, com ‘Cobra Norato’, que tem Belém como um dos palcos de reatualização do mito oral”, analisa.

Já Antonio Juraci Siqueira compara a Amazônia com a Grécia. “Na Grécia o imaginário e o real se confundem. Lá ninguém fazia nada sem consultar o oráculo e saber qual seria o seu destino. Vivia-se em função do mito. Aqui as histórias estão entrelaçadas, não dá pra saber se é verdade, se foi vivido ou não. Mas mesmo as histórias se perpetuam”.

No I Encontro de Contadores de Histórias da Amazônia, Juraci pretende contar e ouvir mais histórias, e quem sabe, publicá-las. A iniciativa é fruto da parceria entre Movimento de Contadores de Histórias da Amazônia (Mocoham) e Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves.

A programação inicia no dia 1º e vai até o dia 2 de dezembro. O escritor pede que os pais levem as crianças. “É bom interagir com os mais novos. Eles se envolvem, participam. Cada contador tem uma maneira diferente de narrar. Expressões, gestos, olhares. Tudo isso é percebido pelas crianças, que respondem empolgadas a cada história”.

ENCONTRO

Confira informações e inscreva-se no I Encontro de Contadores de Histórias da Amazônia pelo site www.mocoham.blogspot.com. (Diário do Pará)

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