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Ruy Barata: nome que é sinônimo de poesia paraense

11/12/2011

(Foto: )

Era o mês de julho de 1989, não lembro o dia. Era uma manhã, e ela já ia alta. Ruy Barata veio me receber à porta, todo de branco. Morava então na rua Veiga Cabral. O poeta me conduziu até uma espécie de construção agregada à casa, e que lhe fazia as vezes de biblioteca. Bem, não garanto que tudo se deu exatamente assim – afinal, já se passaram vinte e dois anos.

O dia não chegara à sua metade mas Ruy perguntou se eu tomava alguma coisa. Sugeri uma cerveja, e ele gritou para que alguém fosse buscar quatro ou cinco, das pequenas, na esquina. Para minha surpresa, em vez de me acompanhar, reapareceu-me com um copo de leite. Ante a minha estranheza diante de tal inusitada parceria – logo ele, um dos mais conhecidos símbolos da boemia belenense –, o autor da música “Este rio é minha rua” justificou-se: estava com um probleminha no estômago. E assim nos sentamos, invertendo uma possível ordem natural das coisas: o entrevistador bebendo cerveja diante de um lácteo entrevistado. Bem, ao menos o leite combinava com o alvo vestuário do poeta.

Eu estava ali com a missão de entrevistar Ruy Guilherme Paranatinga Barata para a “Amazônia Hoje”, revista já extinta, da qual eu era redator. Ele havia completado 69 anos no mês anterior, em 25 de junho. O nome de Ruy Barata, na Belém de 1989, evocava poesia e política/boemia e música, no tradicional esquema de rimas ABAB. O poeta morreria no ano seguinte, em 23 de abril de 1990 – um mês antes de completar 70 anos –, após uma cirurgia urológica realizada em São Paulo. A crise irrompeu-lhe na capital paulista, para onde viajara a fim de coletar informações sobre a passagem de Mário de Andrade pela Amazônia, que seriam utilizadas num trabalho futuro que ficou no embrião. Acho que aquela foi uma das últimas entrevistas, ou a última longa entrevista que ele concedeu a uma publicação.

Naquele julho de 1989, Ruy ostentava uma vasta cabeleira branca. No Bar do Parque (a melhor moldura da nossa boemia e de seus protagonistas), ele era figura familiar, comandava a mesa de cantores, poetas, jornalistas e bebuns em geral, regia o coro de afinados e desafinados. Aliás, a conhecida estátua do poeta ali o representaria quase ao natural, em vez de localizada onde está, em outro parque, o da Residência. A mão direita em forma de concha sob o queixo, o cigarro pendurado entre os dedos fura-bolos e o pai-de-todos, o velho Ruy pedia pressa na dose de cuba-libre, ao que o Sérgio, garçom que o atendia, respondia que estava passando na manteiga. Recepcionava os amigos com efusiva ebulição, mas não era incomum mandá-los ao diabo no fim da noitada. Lá pelas tantas, amparado nos braços de uma providencial musa grega papa-chibé, embarcava num táxi e sumia rumo a outros cantos e violões. Pensando bem, melhor que a estátua do Ruy permaneça onde está. No Bar do Parque, sofreria o mesmo tipo de vandalismo a que está exposta a estátua de Carlos Drummond de Andrade na praia de Copacabana. E ainda teria de aturar os chatos de pedra.

Mas como eu ia dizendo, ao chegar ao Bar do Parque com a sua esvoaçante cabeleira branca, alguns, como o jornalista Raul Thadeu da Ponte Souza (já falecido), saudavam a chegada do bardo chamando-o de Ezra Pound, descobrindo-lhe semelhanças com o lendário poeta norte-americano, para satisfação do nosso menestrel. Outros, porém (e que podia ser o mesmo Raul Thadeu), gozavam-no: “Estás a cara do Buffalo Bill”.

DAS PRIMEIRAS LEITURAS À GUERRA FRIA

Nascido em Santarém em 25 de junho de 1920, filho único de Maria José (dona Noca) e do advogado Alarico de Barros Barata, Ruy, a exemplo de muitas crianças de sua geração nascidas no interior – como o historiador e folclorista Vicente Salles –, recebeu as primeiras letras do próprio pai. Admirador de Rui Barbosa, ‘seu’ Alarico, além de fundar um colégio em Santarém com o nome do eminente jurista baiano, estendeu a homenagem onomástica a seu único rebento.

E foi na biblioteca paterna – a maior de Óbidos, garantia o filho, cidade em que o pai foi juiz pretor – que o futuro autor de “A Linha Imaginária” iniciou-se no venturoso mundo dos livros. Se os livros de direito não faltavam, naturalmente, na biblioteca de um advogado, àqueles faziam companhia os clássicos franceses, ingleses, os russos. Sem norte a lhe orientar a leitura, o pequeno Barata foi pulando de livro em livro, explorando os universos de Charles Dickens, Daniel Defoe, Jack London, Emile Zola, Guy de Maupassant. Tudo lhe entrava na cabeça como um inebriante mundo fabular.

Aos dez anos de idade, em 1930, Ruy veio de muda para Belém. No colégio Nazaré, pelas mãos do padre Pedro de Alcântara, é apresentado a autores como Olavo Bilac e Augusto dos Anjos. Faz o curso preparatório para o vestibular de direito no Colégio Estadual Paes de Carvalho. No CEPC, é um dos fundadores da revista “Terra Imatura”, onde publica, com 16 anos, seus primeiros versos. Poetando, conhece Francisco Paulo do Nascimento Mendes, o Chico Mendes, professor de literatura do colégio – e de quem se tornaria amigo da vida inteira –, e o escritor Dalcídio Jurandir.

O romancista de “Chove nos Campos de Cachoeira”, já morando no Rio de Janeiro, seria o responsável pela estreia de Ruy Barata em livro, intermediando, junto à prestigiosa editora José Olympio, casa de grandes escritores brasileiros, a publicação de “Anjo dos Abismos”, em 1943, no mesmo ano em que Ruy se forma em direito. Orador de sua turma, pede o retorno das liberdades democráticas, isso em pleno Estado Novo de Getúlio Vargas, que cairia dois anos depois, ao fim da II Guerra Mundial. “O meu discurso foi todo eivado dessa inquietação sobre a guerra”, observou Ruy.

Restituída a democracia que, como orador, o poeta clamara, Ruy se elege deputado estadual, em 1946, integrando a Assembleia Constituinte paraense. Reeleito em 1950, chega a deputado federal, entre 1957 e 1959. Sobre esse período, testemunhou: “Vivíamos então no tempo da Guerra Fria. Na União Soviética, os intelectuais sofriam com o stalinismo; nos Estados Unidos, os intelectuais sofriam por causa do macarthismo. Foi uma época terrível”. Como bandeira política, acrescentou, “defendíamos o monopólio estatal do petróleo, o rompimento do acordo-militar Brasil-Estados Unidos, a defesa da pátria, do divórcio. Esses assuntos eram fantasmas para a sociedade da época, e isso me deixou comunista na frente deles”.

A MAIS BRILHANTE GERAÇÃO LITERÁRIA

Enquanto isso, nas franjas das lutas políticas, à margem do picadeiro panfletário, o literato Ruy Barata avança fronteiras. Lá do Rio de Janeiro, Dalcídio lhe envia livros de todos os países do mundo. “Ele me meteu nas mãos autores da Rússia, Inglaterra, Estados Unidos, França, Portugal, Espanha, Argentina, Chile, México...”. Lê Paul Valéry, T.S. Eliot, García Lorca, Rilke, Neruda, Ezra Pound, leituras que conjuga aos brasileiros que já vinha lendo, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Manuel Bandeira, Jorge de Lima (“a quem nunca dei muito papo, foi só com ‘Invenção de Orfeu’ que fui lê-lo”). A crescente fama de boêmio, que sobrevive ainda hoje entre as novas gerações que cresceram depois da morte do poeta, não faz jus ao Ruy estudioso, que varava noites lendo (e lia em francês, inglês, espanhol) e pesquisando.

O que não lhe chegava pelo “correio literário” de Dalcídio vinha-lhe por intermédio do “velho Garcia”, “que ia de casa em casa com os catálogos das editoras, era um vendedor autônomo”, disse-me Ruy. “Ele ocupou um papel que não era preenchido pela universidade.” Como freguês contumaz do velho Garcia, Ruy leu da literatura alemã (“o Wassemann, os irmãos Mann, Thomas e Heinrich, ‘O Processo’ do Kafka”) aos franceses, André Maurois, André Gide, incluindo “os novos” Jacques Prévert, Benjamin Péret, Louis Aragon, Paul Eluard. O deslumbrante mundo do cinema daquela época lhe chegava através dos textos – mais do que nas imagens – da “Nouvelle Revue Française”, dos “Cahiers du Cinéma”. Aliás, Ruy já era um cinéfilo desde Santarém, “a minha primeira grande aventura artística”. Na capital do ex-quase-futuro Estado do Tapajós, o imberbe poeta era um velho fã do cinema, frequentador do Olímpia e do teatro Vitória. “Não perdia as matinês. Foi lá que vi todo o Carlitos.”

O segundo livro, “A Linha Imaginária”, chegou em 1951. Foi bancado pelo selo editorial de uma revista, já não a “Terra Imatura”, mas a “Norte”, que tinha, como motor criativo, a geração de Benedito Nunes, Mário Faustino, Haroldo Maranhão, que era a do próprio Ruy. “Norte” triangulava com o suplemento literário de “A Folha do Norte”, dirigido por Haroldo, e o suplemento literário de “A Província do Pará”, que chegou a ser dirigido por Ruy Barata. Essa geração literária, a mais brilhante que Belém conheceu (inclua-se Max Martins, Chico Mendes, entre outros), tinha o Central Café como ponto de encontro, “onde aconteciam as trocas de informações, quem leu isso e aquilo”.

Com “Me trae una Cuba Libre” o poeta saúda, em 1959, a Revolução Cubana e, ato seguinte, entra para a militância clandestina do Partido Comunista Brasileiro, o PCB. Ingressa no circuito nacional literário de esquerda ao publicar no “Violão de Rua”, publicação do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Com Golpe Militar de 1964, poeta é levado a se reiventar

Com o Golpe Militar de 1964 vem a rebordosa. Ruy é preso, destituído de seu cartório e, “a bem do serviço público”, aposentado compulsoriamente do cargo de professor da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Pará. Justificativas para a cassação? O próprio Ruy comenta: “É que eu recebia correspondência ativista de Cuba, da China e da União Soviética”.

Pai dedicado e carinhoso, para fazer frente às despesas e garantir o pão de cada dia da família numerosa (em 1941, casou com Norma Soares Barata, com quem teve sete filhos: Ruy Antônio, Paulo André e Tito, os homens, e suas quatro Marias, Helena, Nazaré, Diva e Inez, além de dois outros filhos, João Ricardo e Luiz Renato, de um relacionamento posterior), “fiquei exercendo a advocacia, andei, conheci um pouco mais do meu Estado e me meti nas questões agrárias daquele momento”, disse, relembrando o período.

Reforçando o orçamento doméstico, Ruy também escreveu artigos e reportagens com pseudônimos – entre os quais, o de Valério Ventura – para jornais da cidade. É como Valério Ventura que Ruy, num texto delicioso escrito para a “Folha do Norte”, vai ao tradicional Sebo do Dudu e, em seguida, ao gerente Gama, da Livraria Martins, para saber as manias e truques dos intelectuais belenenses dos anos 60 e o que se lia na cidade.

Aposentado “manu militari”, Ruy reinaugura-se como compositor. Ao lado do filho Paulo André compõe canções que, na voz de Fafá de Belém, além de se converterem em clássicos do repertório paraense, tornaram-se conhecidas em todo o país, como “Indauê-Tupã”, “Este rio é minha rua”, “Pauapixuna”, “Foi assim”. Waldemar Henrique, José Guilherme de Campos Ribeiro, Edyr Proença, Alfredo Reis e Chico Sena (que se suicidou e a quem Ruy dedicou um belo poema) também assinaram composições com o poeta. Segundo Ruy, ser letrista era “uma arte menor, se é”, ressaltava, “que existe arte maior e arte menor”. Em 1979, com a Lei da Anistia, o autor de “A Linha Imaginária” volta a ensinar Literatura Brasileira na UFPA.

Conhecido pela boemia, pela entrega à noite, peregrino dos bares, perguntado sobre o que tanto na noite lhe seduzia, cravou, direto: “Sobretudo a bebida. Eu gosto da bebida, mas não como pretexto poético”. E arrematou, com uma piscadela à guisa de chave de ouro etílica: “Aliás, eu e o Hélio Gueiros”.

O HOMEM DO POVO, O INTELECTUAL

Naquela entrevista que me concedeu em 1989, quando lhe perguntei se estava preparando algum novo livro, disse que se dedicava a um poema chamado “O Nativo de Câncer”, “do qual já foram publicados dois cantos”. Em 1960, no extinto jornal “Folha do Norte”, da família Maranhão, Ruy havia dado à luz uma primeira versão do poema, no qual ainda se debruçava quando morreu. Era o seu “work in progress”, seu trabalho em andamento, ou, como ele próprio definiu, “de longo curso”. “O Nativo de Câncer” é uma espécie de acerto de contas de Ruy com suas origens geográficas e influências literárias, seu torneio com a língua, de Santarém e Homero até os concretistas, ou melhor, Mário Faustino, que morreu muito cedo, aos 32 anos, em 1962, mas continuou habitando a poética de Ruy Barata.

"Noite norte noite nauta noite

alimária alimento veigas várzeas

é carne crina corda cresta castra

onde velo indormiu trono e vassalo

à sombra do perau grelavam espadas

dardos e delfos dolos duros dados

e da túnica floral ao verde pasto

gemiam rui e rei entremeiagens

semelhos setestrelos seistavados

de quelônios quebrantos e queimadas

de currais e busões sementes sardas

valcimentos de Apolo prendas partos

onde Melus se esvai em Melo e Mário

reinúncios e reispôncios reisplantados

em Lesbos que do rei tece o enjeitado

desmandando perdões traumando gastos

retas e rotas relhos penhas pasto"


[Trecho inicial do poema “O Nativo

de Câncer”, extraído do livro “Antilogia]

(Elias Ribeiro Pinto, Diário do Pará)

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