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O poeta da negritude, dos tambores e do luar

24/12/2011

Ele podia chegar em casa para o almoço por volta das três da tarde. Era bem capaz que já tivesse passado pelas barracas do Ver-o-Peso, onde não deixaria de tomar uma branquinha, uma batida de cupuaçu, acompanhada de iscas de peixe frito. À mesa, o aguardava um guisadinho de músculo, “levemente enervado”, acompanhado de maxixe e quiabo, que ele cortava tudo bem miudinho.

Em seguida, podia guardar a sesta, ou, escutados os inconfundíveis acordes do cinejornal que precediam a exibição do filme em cartaz, chispar de pronto para o cinema ao lado, o Guarany, seu vizinho na rua João Diogo, na Cidade Velha. Adorava a sétima arte. Na entrada, bastava apresentar a carteirinha de jornalista. O livro “Lua Sonâmbula”, publicado em 1953, com o autor na maturidade dos 60 anos, traz um poema que revela a sua paixão pelo cinema. “O cartaz convidava ao cinema do bairro./ E então, a Minha Lua, que adora as coisas simples,/ veio ao Jardim de Alá,/ que era o filme amoroso desdobrado na tela.” O filme “desdobrado na tela” era “Jardim de Alá”, protagonizado pela dupla romântica Charles Boyer e Marlene Dietrich.

E quem vai desdobrando essas lembranças, na mesma casa ao lado do cinema que já não existe mais, é a filha Maria de Belém Menezes. Ao lado de monsenhor Geraldo, da freira Marília, do magistrado Stélio, do médico José Haroldo, de Maria Ruth (já falecida) e da pianista e musicóloga Lenora, compõem a prole deste que Benedito Nunes disse ser “um dos melhores poetas do Brasil setentrional, inventor e mestre na arte da palavra”.

MULATAS & TÓ TEIXEIRA

Bruno Bento de Menezes Costa nasceu em Belém, em 21 de março de 1893, filho primogênito de mestre pedreiro, o cearense Dionísio Cavalcante de Menezes, e de Maria Balbina da Conceição Menezes. “A infância passou-se na estância coletiva ‘A Jaqueira’, Jurunas, livre e solto, admirando os seus valentes desordeiros, os capoeiras, os manejadores de navalha, os embarcadiços, as mulatas carnudas e trescalantes; acompanhando nos ombros largos de seu pai o Círio de Nazaré, gola azul, gorro de marinheiro de fitas pretas e letras douradas; pisoteando, adolescente, nas saídas festivas de Boi-Bumbá de seu padrinho Miguel Arcanjo, sob os olhos carinhosos de sua mãe Balbina”, lembrou o poeta Alonso Rocha, em pronunciamento realizado na Academia Paraense de Letras, em 1988, em homenagem ao 95º aniversário de nascimento do autor de “Batuque”. Menino pobre, “paupérrimo”, como se vê, mas de ricas vivências populares que se refletiriam na literatura que não lhe demoraria a surgir.

Completa seus estudos primários no grupo escolar José Veríssimo. Torna-se aprendiz de encadernador, tendo como companheiro de ofício Tó Teixeira, que viria a ser, mestre de violão, grande nome da cultura popular paraense e amigo por toda vida. Maria de Belém conta, dessa experiência, um caso digno de figurar numa página literária. Do primeiro livro encadernado, o jovem Bruno guardou o nome do autor e a dedicatória. Muitos e muitos anos depois, reconheceria o mesmo volume num sebo. Encantado com a coincidência, comprou-o. O exemplar até hoje está entre as estantes que pertenceram ao escritor belenense. Trata-se do romance “Recordações da Casa dos Mortos”, do grande escritor russo Dostoiévski.

A propósito, já com nome reconhecido na praça como encadernador (bem como de violeiro e compositor), Tó Teixeira, quando recebia obras consagradas para encadernar, em muitos casos livros acima das posses medianas, e sabia que interessariam ao leitor onívoro Bruno de Menezes, convocava o amigo para lê-la na oficina, enquanto recebiam a capa, artesanal, encomendada.

EMBAIXADOR DO PARÁ

Trabalhando como tipógrafo, em difíceis condições (incluindo castigos) que poderiam ser retratadas num sombrio romance à Charles Dickens, Bruno, até pelo acesso que o trabalho numa gráfica eventualmente possibilitava, passa a ler Vicente Blasco Ibáñez, Lev Tolstói, Górki, Marx, Engels, autores que lhe abriram as portas, primeiro da militância sindical, depois, já como professor (ensina as primeiras letras numa escola fundada pela Federação das Classes Trabalhadoras), do anarquismo sindicalista, movimento que tinha uma forte presença entre os trabalhadores brasileiros das primeiras décadas do século XX.

“Literatura e revolução foram, portanto, no pensamento do jovem Bruno de Menezes, faces de uma mesma moeda”, aponta o historiador Aldrin Moura de Figueiredo num artigo sobre a influência anarquista na formação política e intelectual do autor. É na revista “O Martelo”, editada por jovens literatos, que se dá sua estreia em versos, com o poema sintomaticamente intitulado “O operário”. Ainda segundo Aldrin, “os desdobramentos da militância política e literária de Bruno de Menezes depois de 1920 serão ainda mais convincentes para se compreender a lógica própria do modernismo que se construía na Amazônia naquele momento”.

Quatro anos antes, em 1916, integra um grupo de jovens, os “Vândalos do Apocalipse”, que, com ímpeto juvenil, se destinaram à missão de renovar a poesia no Pará. Ao sabor das andanças boêmias de Bruno, sem condições de frequentar os salões e faculdades dos bem-nascidos, surge, tão improvisada quanto as rodas que se iam formando pelos botecos do Ver-o-Peso, a geração do peixe frito, que se abastece, em vez do chá acadêmico (que Bruno mais tarde comungaria, como imortal da Academia Paraense de Letras), de postas de peixe de 200 réis, farinha d’água de dez tostões o litro e cachaça de 500 réis a dose.

Em volta do peixe frito, os apostólicos da boemia, entre outros, Abguar Bastos, De Campos Ribeiro, Jacques Flores, Clóvis de Gusmão, Eustachio de Azevedo, Remígio Fernandez, em brindes que se estendiam aos bares Pilsen, Paraense, Leão da América, Barbinha. Aqui vai se aprumando, na faculdade das andanças no meio do povo, o Bruno portador da cultura popular, a mais autorizada fonte desse saber das ruas, conhecimento ambulante e de se fazer em livro, o Bruno festeiro, dançarino de festas folclóricas, de quadrilhas juninas, de pássaros, dos tambores de batuque, do boi-bumbá, o folclorista que, mais tarde, terá o reconhecimento público de Luís da Câmara Cascudo, o folclorista-mor da nação, reconhecimento que valerá por título de doutor “honoris causa”, será o embaixador do Pará, “com as credenciais da cultura, sinceridade, emoção”.

A BILHA E DONA  FRANCISQUINHA

Em 1920, Bruno lança seu primeiro livro, de poesia, “Crucifixo”, composto e impresso pelo próprio autor e pelo amigo Jacques Flores. Quatro anos depois, vem “Bailado Lunar”. “A poesia de Bruno nasceu simbolista, servida por um sólido aparato formal do verso, que lhe assegurou lampejos parnasianos em seus dois primeiros livros”, comenta Benedito Nunes. Este simbolismo, segundo o crítico, facilitaria a posterior mudança qualitativa para o modernismo, de que “Batuque” (1931), a mais celebrada obra do autor, é seu momento máximo. Mas que não se tome, alerta Benedito, o restante da obra – as que antecedem, a exemplo das duas já citadas, e as que vêm depois de Batuque – “como sua periferia”.

Por indicação da própria família, “Bailado Lunar” representa a poesia de Bruno no volume da série “Orgulho do Pará”. “Papai não foi um homem de um livro só”, diz monsenhor Geraldo Menezes. É verdade. Em “Bailado Lunar”, ainda nos surpreende o pulsar transfigurador de seus versos, que exalam a latência de uma época – e a própria transição poética do criador, a caminho do modernismo, vindo do simbolismo –, num cenário autoral iluminado por uma das obsessões de Bruno, a lua (que comparece também no título de outro de seus livros, Lua Sonâmbula, de 1951), “bailarina imemorial dos ares”.

Célia Coelho Bassalo assina um excelente estudo sobre o livro, “Bruno de Menezes ou a sutileza da transição”. “Que canta agora o poeta de simbólicos detalhes literários ‘art nouveau’?”, pergunta-se a autora no artigo. Ao que responde: “Prioritariamente, a figura feminina; a ‘coquette’ que exibe o corpo gracioso; a mulher amada; a mulher que fascinou por suas roupas colantes ou esvoaçantes que fingiam esconder, mas ao mesmo tempo, expunham a sinuosidade de suas formas esbeltas, elegantes”.

Entre “Crucifixo” e “Bailado Lunar” há um acontecimento capital na vida do poeta. Casa-se, em 1921, com a professora Francisca Sales Santos, futura dona Francisquinha. “Se papai era um homem muito calmo, sereno, que nunca brigou com os filhos, mamãe nos dava ‘surras de língua’”, recorda, com um sorriso, Maria de Belém. “O que era ‘surra de língua’?. É que mamãe, professora normalista, era rigorosa com o português”, explica Belém. “Um dia, minha irmã, Ruth, gritou da cozinha: ‘A bilha quebrou-se’. E levou logo um ralho de mamãe: ‘Um objeto não pode exercer ação verbal. Tu quebraste a bilha’.”

‘O FOLCLORE SOU EU!’

Em 1931, como já se disse, Bruno publica sua obra mais cultuada. “Batuque” celebra a negritude e a modernidade poética. “É um retrato de Belém, história do Umarizal, da Pedreira e da Cremação, do cais e das velhas docas. O subúrbio e o terreiro, em suas páginas, estão dançando e cantando”, registra o amigo Dalcídio Jurandir, como quem ergue um brinde. Muitos poemas desse livro foram grafados musicalmente, a pedido de Bruno, pela filha Lenora, ainda menina e estudante de música. “A riqueza musical, folclórica e negra de ‘Batuque’ abriu portas para que Waldemar Henrique, por exemplo, avançasse esses temas na música que comporia em seguida”, observa Lenora, com a autoridade de quem defendeu mestrado em musicologia na USP sobre a presença do negro na literatura e na música paraense.

O segundo trabalho que compõe o volume da coleção do DIÁRIO, “São Benedito da Praia: Folclore do Ver-o-Peso”, de 1959, nos traz o Bruno folclorista, encantado pesquisador das artes e crenças populares, e que acaba, como consequência de sua prosa irresistível, nos encantando, fazendo com que, no momento da leitura, estejamos outra vez ao lado desse personagem imortal que é o próprio Bruno de Menezes, a nos conduzir por aquele Ver-o-Peso festeiro e povoado de crenças do final da década de 1950, como ainda hoje.

A exemplo do que disse Heitor Villa-Lobos, certamente calcado em Flaubert (“Madame Bovary, c’est moi!”), Bruno de Menezes também poderia dizer: “O folclore sou eu!”, brado endossado pelo mais importante folclorista paraense atual, Vicente Salles, que, menino chegado do interior, recebeu influência decisiva do autor de “Boi-Bumbá – Auto Popular”, vizinho de Cidade Velha

Muito ainda se teria a dizer de Bruno de Menezes, o fundador da revista “Belém Nova”, cujo primeiro número, de setembro de 1923, fez com que Belém se tornasse a terceira capital a aderir ao modernismo no Brasil. Falar do Bruno que pregou e lutou pelo movimento cooperativista.

Sobra espaço apenas para dizer que Bruno morreu como viveu. Em 1963, aos 70 anos de idade, em Manaus, participava como jurado de um festival folclórico. Discursou. Deu cursos de folclore e cooperativismo. Subiu ao palco, cabeça branca, para dançar. À noite, varando madrugada, espírito boêmio e conversador, contador de anedotas, se reunia com os rapazes do Clube da Madrugada de Manaus. Um ataque cardíaco o derrubou, no dia 2 de julho. Morreu como um personagem de Jorge Amado. Mas em vez da cidade da Bahia, Belém, que amava como amava a mulher, terno, os filhos, carinhoso, os amigos, amigo. No dia seguinte, o corpo chega a Belém, é velado e enterrado no dia quatro, no cemitério de Santa Isabel.

Certa vez, em Belém, identificando-se como filhas de Bruno, Maria de Belém e Ruth são apresentadas ao poeta amazonense Thiago de Mello, que era do Clube da Madrugada. Ao saber-lhes a paternidade, o já consagrado poeta disse-lhes: “Ele era o mais jovem de todos nós”.

(Diário do Pará)

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