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Amor de bicho

05/12/2012

(Foto: Daniel Pinto )

Assim que se chega à porta, as orelhas se levantam em busca de uma explicação. Sem que se perceba, imediatamente os olhos se arregalam, fixados em um ponto específico, e os rabinhos ganham, à medida que os ouvidos anunciam a chegada, um movimento frenético incapaz de apresentar uma direção exata. Antes que se consiga abrir o portão, saem em disparada em direção à entrada, mesmo que isso renda, para os menores, alguns atropelos. Vale qualquer coisa para ganhar um afago.

Dispensada qualquer tipo de apresentação ou pedido de licença, Monique Teixeira é recebida pela atenção dos que, já banhados e medicados, parecem agradecer a cada latido. Sem a identificação por nomes ou muitas palavras dispensadas, a veterinária, que há dois meses optou por adotar para si os problemas enfrentados por 40 cachorros e 40 gatos de um abrigo abandonado, se certifica do estado de saúde de cada um dos que chegam até seu encontro. Em meio às fungadas dos narizes molhados e às patinhas que, inquietas, repousam sobre suas pernas pedindo maior atenção, não há como optar. “Sou apegada a todos. Quando eu chego, eles já fazem festa”. 

O contato com o local veio a partir de uma amiga. Assim que teve conhecimento da situação de abandono vivida pelos animais que moravam no abrigo, Monique não pensou duas vezes. Ciente de que não poderia, sozinha, solucionar todos os problemas pelos quais os animais estavam passando, partiu para a internet. “Desde a primeira vez que vim notei que tinham muitos animais doentes, e começamos a mobilizar as pessoas”. 

Os voluntários chegam ao local sem que haja necessidade de pedir licença. Lá as portas sempre estão abertas. Apesar de não conhecer a veterinária pessoalmente, foi através da ação de Monique que a aposentada Eliana Oliveira se inteirou da situação do abrigo.

Sem que a informação tenha grande importância para a grande maioria das pessoas que, juntas, cuidam dos animais, a aposentada é uma das poucas pessoas que parece conhecer a história do local, que sempre ajudou. “Esse abrigo pertencia a uma professora que cuidava muito bem dele. Eu doava ração todo mês para cá”, lembra. “Parece que ela ficou muito doente e não pode mais cuidar do abrigo e a pessoa que ela deixou responsável por cuidar o abandonou. Quando descobri que ele estava nesse estado, resolvi me juntar a essas pessoas para tentar uma solução”, conta. 

ABRIGO ABERTO

“Unidos pelos animais” é  a  inscrição da camisa vestida por Eliana. É tarde de um feriado e ela cuida de gatinhos famintos. A frase resume a seu modo o sentido que faz com que o trabalho de todos possa resultar em finais felizes. Sem que ninguém se conheça ou combine o encontro previamente, cada um chega ao local quando pode. Lá, unidos a outros desconhecidos, começam a transformar a vida dos animais, que não deixam de agradecer.

“É uma alegria tão grande, uma alegria...”, tenta descrever a reação dos animais no momento em que o saco de ração é sacodido. “Tudo é carinho, é cuidado. Eles estão tão carentes que, quando escutam a gente chegar, já vêm se atropelando”. 

Sem condições de escolher um animal preferido, Eliana leva para casa os mais debilitados. Apesar do cuidado especial destinado aos que abriga na própria moradia, ela não esconde a felicidade pela melhora dos que permanecem – sem menos carinho - em busca de uma família. “Tem uma gata aqui que digo que é uma doadora. Ela deixava que todos os gatinhos novinhos mamassem nela. Certa vez eu cheguei aqui e ela já estava amamentando 20 gatos e nenhum era filhote dela”, sorri. A frase sugere que, no abrigo, o sentimento de solidariedade não se faz presente apenas nos humanos. “Se a sociedade sentir que esse [o abandono de animais] é um problema nosso, tudo se resolve”. 

Ciente de sua responsabilidade, a missionária – como se identifica-, Maria Célia Silva não esconde a satisfação por ajudar os bichos que, há poucos dias, nem conhecia. O carinho especial é destinado a uma recém-chegada. “Tem uma pretinha que foi deixada aqui grávida, porque disseram que ela havia ficado muito brava quando engravidou”, conta. “Hoje eu dei banho nela e ela é um doce. Não tem cadela mais doce do que ela”. 

Diante dos gatinhos que, ciumentos, brigam pela sua atenção, Monique Teixeira ganha mais uma certeza da profissão escolhida há dois anos. Presente no dia do banho dos animais ainda de manhã, a hora de saída é incerta. “Todos os dias, quando eu chego, eles fazem festa. São muito carentes de carinho. Quando a gente vê esses animais que escaparam de morrer correndo em nossa direção, não tem nem explicação [para o que se sente]”, emociona-se. (Diário do Pará)

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