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A mágica roda voluntária

07/12/2012

(Foto: Sidney Oliveira )

Da mulher desconhecida veio a pergunta inesperada. Assim que se dirigiu à porta e sem que nenhum contato prévio amenizasse a surpresa da proposta, Dona Deusa foi sobressaltada pela necessidade da mulher que foi à sua procura com uma criança nos braços. “A mulher disse que tinha uma criança que precisava dar”. Sem conseguir conter o ímpeto de ajudar dentro do próprio peito diante da criança, após a conversa com o marido José, a família optou por mudar, definitivamente, os rumos da vida de Eliana Miranda.

Das lembranças mais fortes da infância, Eliana guarda o nome repetido por muitas vezes pela mãe que lhe acolheu desde o primeiro momento. Antes mesmo de conhecer o local batizado de Lar de Maria, o significado de sua existência já era sentido em muitos gestos. “Tenho uma memória afetiva da minha mãe muito forte por causa do Lar de Maria. Eu me lembro de sempre ouvir a minha mãe repetindo esse nome, mesmo quando eu nem sabia o que era o Lar. A vida me trouxe o Lar de Maria. Se ele não existisse, a minha vida não existiria. Minha mãe era brava, mas tinha um coração que não cabia nela”, recorda. “Um dia estava trabalhando e a ficha caiu: muito da minha existência está vinculada ao Lar de Maria. A minha mãe, com todas as suas dificuldades, se propôs a criar filhos que não eram dela e um deles [ela mesma] veio bater aqui [no Lar de Maria]”.

Com a lembrança sempre viva do contato que sua mãe adotiva teve com a instituição e passado o momento prévio de encontro com a própria doutrina, Eliana teve a oportunidade de conhecer o motivo de tanta admiração. Bastou uma apresentação para que o trabalho desenvolvido pela instituição que nasceu como Casa de Amparo às Crianças Órfãs e aos Idosos, para que doação tomasse conta de sua vida. “Logo na entrada tive contato com algumas fotografias da época da fundação e fiquei absolutamente encantada. Quando o Lar de Maria começou, era um orfanato que era muito voltado para a adoção das crianças”, destaca ao ver sua história misturada com a da instituição. “Quando já tinha três anos dentro da doutrina espírita, cheguei a um momento em que já havia assimilado e queria compartilhar”.

O compartilhamento veio através do trabalho voluntário. Sem titubear, Eliana optou por dedicar parte de sua vida a crianças que, assim como ela, precisavam de ajuda em um dos períodos mais frágeis da existência humana. “Sei que muita gente é feliz porque o Lar de Maria existe. Vi muitas vidas serem mudadas por aqui. O voluntariado é como um mosquito. Te ferrou, nunca mais sai de ti”, relaciona. “Para os espíritas, é uma condição natural se tornar voluntário por uma causa, proporcionar o bem na vida de uma pessoa. Mas é fato que tem que se abrir mão de parte de sua vida, de alguns prazeres”.

De início, em meados de 1987, muito da rotina da voluntária foi renunciada pelo bem que ela mesma poderia proporcionar às crianças atendidas. Hoje, apesar da frequência já não ser mais a mesma - muito em parte por conta do emprego que exige que Eliana viaje constantemente -, no primeiro contato com as crianças, suas feições ganham a mesma vida que há anos atrás. “Bom dia amor!”, se dirige à turma batizada com o nome de um dos sentimentos mais praticados pela própria voluntária dentro do Lar. “O que você ganha quando é voluntário é o prazer de ser útil. Aqui estão crianças que passam muita dificuldade e esse é um espaço de compensação do que essas crianças não têm em casa por conta da dureza da vida”.

Em sua própria casa, durante a infância agitada, Eliana foi apresentada ao ensinamento que, ainda hoje, é uma máxima em tudo o que pratica. “Somos três irmãos e sempre soubemos que éramos adotados. Isso nunca foi escondido. Tive uma família e ela foi muito bacana, apesar de não sermos uma família de pote de margarina”, compara. “Sempre fui ensinada que o amor que se pode dar a uma pessoa independe do sangue”.

Apesar da certeza de quem sempre foi sua família, a busca pela identidade perdida no início da vida não fugiu à Eliana. Há pouco mais de dois meses ela teve a oportunidade de fazer a pergunta que levou consigo durante os 50 anos de vida. “Tive a oportunidade de perguntar o nome do meu pai biológico. Percebia que na minha família adotiva cada um tinha uma cara. Passei a pensar que eu tinha irmãos em outros lugares e que eles tinham a minha cara e fui descobrir quem era o meu pai”.

Apesar da descoberta e da felicidade da aproximação com alguns dos irmãos conhecidos já adultos, Eliana remete à todo o momento o ensinamento aprendido no início da vida e perpetuado não apenas entre as crianças atendidas pela instituição da qual é voluntária. “Trouxe meu filho para o Lar de Maria onde ele teve contato com os meninos da creche para ele não viver naquela redoma. Queria dar a ele a condição de conhecer a vida real”, explica. “Estou para o Lar de Maria, mas ele também está para mim a vida inteira e  me sinto imensamente grata por isso. Muito do meu universo de doação é para agradecer pelo o que tive na vida. Quando se é adotada por uma família como a minha, não há como não registrar esses valores. Você se vê repetindo esses atos”. (Diário do Pará)

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