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Tudo por um sorriso

09/12/2012

(Foto: Sidney Oliveira )

Sem conseguir conter a ansiedade dentro do peito, saíam tímidas a perseguir as vozes que ecoavam alegres pelos corredores silenciosos do hospital. Mesmo que separados apenas por alguns metros de parede, a impaciência era maior do que a necessidade de permanecer. Aos poucos e com os olhares brilhando de curiosidade, as crianças saíam à procura. Os sorrisos não poderiam esperar. 

No momento em que o único barulho produzido no local vinha das gotas de chuvas que batiam, tímidas, nas janelas fechadas, a entrada de três desconhecidos não poderia ser mais bem recebida. Muito diferente dos jalecos brancos que circulam várias vezes ao dia por entre as camas enfileiradas da enfermaria, as vestimentas coloridas e estampadas levam cor não somente aos olhos das crianças que aguardam por uma melhora do quadro de saúde, mas também aos corações de todos que fazem do local a moradia temporária. 

“Pode entrar!”, se apressa em dizer o pequeno Cauê, de nove anos. Já na primeira aparição da Trupe da Pró-Cura na entrada de uma das enfermarias do Hospital Universitário João de Barros Barreto, o sorriso solto aparece no rosto do menino para não mais sair. Mais ativo das cinco crianças internadas no local, ele é o primeiro a interagir com os palhaços. Já está conquistado. “Eles são muito legais”.

Ao mesmo tempo em que os demais coleguinhas de Kauê ainda se adaptam à quebra na rotina do hospital, da enfermaria do lado surgem os que, assim como o menino, não conseguiram aguardar para acompanhar as brincadeiras dos palhaços - que pulavam, conversavam e rolavam no chão. A cada manifestação da trupe, o som era cortado por risadas diversas que se misturavam em perfeita sincronia. 

Afastado dos amigos e, desta vez, sem as características de palhaço, Vitor Nina acompanhava, na prática, o resgate de um ‘pé perdido’ da saúde no Brasil. “Falamos muito de doenças nos hospitais e pouco de afeto. O que fazemos através do teatro, do teatro de rua, é tentar resgatar esse ‘pé perdido’ da prática de saúde”. 

RISOS QUE CURAM

Desde que deu o pontapé inicial para a concretização do projeto com outros colegas da faculdade de medicina, Vitor já ocupou por muitas vezes o papel realizado naquela tarde de domingo pelos três amigos. Independente da atual diminuição da atuação, enquanto palhaço que anima as crianças internadas pelas mais diversas patologias, o simples observar não lhe é suficiente. “Vem aqui, vem aqui!”, incentiva uma das crianças mais tímidas a assustar um dos palhaços, com um leve chute por trás. “O nosso projeto pretende, cada vez mais, se aprofundar. Nosso trabalho é transformar a realidade do hospital. Está  muito além de entretenimento”. 

Independente do objetivo e das ideologias carregadas pelo caráter ‘curativo’ do projeto, não há evidência maior da transformação causada nas crianças pela ação da trupe do que a própria resposta dos pequenos pacientes. ‘Palhaço da vovó’ no momento em que entra em ‘cena’, Leon Mourão é exemplo disso. Marcado como nunca pela história de uma das crianças para a qual já fez palhaçadas durante algumas internações, ele carrega consigo muito do sentimento que, por várias vezes, ele pretendeu doar às crianças durante as visitas. “Fiz uma intervenção de Natal onde conheci um menino de nove anos. Rapidamente ele se tornou minha criança preferia e eu me tornei o palhaço favorito dele”, recorda. “A imagem que tenho do palhaço é de que é um espelho que reflete tudo que recebe. Então, tento transmitir de volta o que recebo. Quando ponho o nariz e vejo uma criança abrindo o sorriso para mim...”, emociona-se.

Independente dos sorrisos sempre bem-vindos, para Bruno Passos, também integrante do grupo, a missão dos palhaços no hospital é maior que a de fazer gargalhar. “O palhaço também é o cara que acompanha aquela criança quando ela precisar. O palhaço é mais um companheiro nessas horas que, às vezes, é de tristeza ou de choro”. 

Esquecidas as agulhas nas mãozinhas da maioria das crianças – para a colocação rápida do soro e outros medicamentos -, a alegria que se fez presente nas enfermarias durante a passagem da trupe vai além das crianças. Sem conter as risadas arrancadas pelos três palhaços que, embaraçados, rolavam no chão da enfermaria, a dona de casa Angélica Braga fazia questão de registrar tudo pelo celular. “Já estamos aqui [ela e o filho] há 22 dias e isso faz muita diferença. Ele gosta tanto que já diz que quer passar o Natal no hospital”, brinca. 

Há menos dias no local, o pequeno Kauê, tão receptivo no desde o início da apresentação, também é o primeiro a agradecer pela quebra na rotina difícil. “Tchau! Obrigado”, despede-se. Os palhaços saem de cena. No rosto do menino, o sorriso permanece. (Diário do Pará)

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