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Se todos fossem iguais a você

11/12/2012

(Foto: Marco Santos )

Quem vê Célio Henrique Cecim Godim sabe: eis um homem prosador. Foi padeiro, motorista de ônibus, vendedor de lanche e taxista. Morou em Belém, Igarapé-Açu, Maracanã, Santa Izabel, Mosqueiro. Para onde foi levou o bom papo e um sonho. “Sempre disse e pensei que quando tivesse uma profissão eu ajudaria as pessoas”. Não tardou.

Em um fusca amarelo utilizado como táxi, Romário – como também é conhecido devido a habilidade com a bola - ganhou o ‘pão’ durante muitos anos. Não só. “Meu ponto era na frente do Pronto Socorro da 14 [Hospital de Urgência e Emergência Mário Pinotti]. Ali se vê muita coisa feia, tudo que é doença. Às vezes o parente morria e a pessoa não tinha como bancar nem o caixão. Como sempre  fui conversador, descobri o lugar onde se podia pedir o auxílio funeral e comecei a levar essas pessoas de baixa renda lá. Também fazia a corrida mais em conta de um hospital pra outro. Na hora do desespero a gente tem que ajudar”, justifica. As lembranças de Romário vão desfiando histórias. As idas e vindas, que se cruzavam com as de outras pessoas, já pareciam rodear um destino, sem saber: corriam para  algo que viria.

UM RUMO: AJUDAR

O marco fundamental deu-se em uma ‘corrida’. Romário estava calado, mas a conversa estava lá. No carro, duas passageiras apontavam como destino final da corrida o ‘Lixão do Aurá’. Eram líderes comunitárias que falavam sobre problemas sociais no local. Aos poucos, o cenário à frente do parabrisas mudava. O assunto se aprofundava. E Romário se via irrequieto.

“Deixei as duas no local indicado, mas precisava ver aquilo mais de perto. Nunca tinha estado no lixão e resolvi conhecer. Era muita pobreza. Miséria como eu jamais tinha visto. Uma realidade muito triste, então eu resolvi ajudar”, lembra. 

Romário acabou usando a rede de contatos formada durante o dia a dia da profissão para pedir ajuda. Vendo a falta de tudo, da alimentação à saúde, ia ao seu jeito providenciando o que podia. Levava moradores para consultas médicas. Conseguia remédios. Tirava do próprio bolso o dinheiro para comprar as cestas básicas e o sopão semanal que distribuía.

 Pedir na rua lhe soava estranho e ele tinha vergonha. Precisou superar. “Foi quando fiquei desempregado. Não tinha mais de onde tirar. Então comecei a pedir onde ia, para poder continuar. Feiras, mercados, ônibus. O prazer que a gente tem na vida é ajudar o próximo. Sou tido como louco por muitas pessoas. Mas que loucura há em querer ajudar a quem precisa? A única recompensa que preciso vem de Deus. É dormir mais sossegado, sabendo que de alguma forma eu fiz o bem”.

E o bem rapidamente virou prioridade, ocupando a maior parte de seu tempo. Perdeu o táxi, mas continuou. Emprestou uma ambulância e permaneceu fazendo o transporte gratuito de moradores carentes, também entregando mingau em hospitais e postos de saúde. Ficou conhecido na área e chegou ao que considera ser a maior realização da sua vida. A construção da creche ‘Filhos do Aurá’, fundada em um terreno particular que possuia na ocupação Carlos Marighella.

“As crianças são tudo pra mim. Muitas delas não têm em casa uma figura masculina porque há histórico na família de drogas e criminalidade. Então eu me sinto um pouco pai de cada uma. São 12 anos de trabalho social na Carlos Marighella. Sei que, infelizmente, perdi alguns meninos para o tráfico porque cheguei tarde. Mas sonho não perder mais nenhum daqui pra frente. Quero fazer da creche um espaço de convivência também com realização de cursos e informática. O jovem se perde porque a bandidagem se mostra mais atrativa. Isso pode ser diferente”, avalia Romário. 

A creche já chegou a abrigar 92 crianças, mas desde dezembro passado encontra-se fechada para uma reforma emergencial. “Precisamos parar para uns reparos e tudo demora porque não temos como nos manter. É tudo no ritmo de doações, mas não perco contato com a comunidade. Levo as crianças para a praça da Bíblia pelo menos uma vez ao mês e continuo distribuindo 500 pratos de comida no Lixão do Aurá todos os sábados. Fazer esse bem é o grande prazer da minha vida”.

DE GRÃO EM GRÃO

Para manter a creche e a distribuição de refeições no Aurá, Célio tem uma rotina organizada. Segundas, quartas e sextas são dias de pedir doações. Sem o táxi e a ambulância, o transporte agora é feito em uma kombi que sai vazia e volta cheia. “A rotina é difícil, mas graças a Deus tem gente para ajudar. Recebo pão, verdura, carne, frango, cominho. Passo na feira do IV [ conjunto Cidade Nova], Paar e Ananindeua. É como se consegue alimentar tanta gente. Às vezes tá escasso, mas faltar nunca faltou”.

Conhecido de Romário desde os tempos em que ele dirigia ônibus na linha Ceasa, Edésio Silva Miranda, 46 anos, foi um dos primeiros a ajudar. Contribui com as verduras que dão mais sabor e cheiro às refeições servidas. “A gente vive com dificuldade, mas ajuda como pode. Ele [ Romário]  tem esse trabalho muito bonito e a gente não pode deixar morrer”, incentiva Miranda. 

“Lembro que ele sempre foi assim, do bem. Acho até que perdeu o emprego por isso, porque quando não se tinha o dinheiro da passagem ele deixava o pessoal passar. Aí os ‘homens’ não se agradavam. Quando ele apareceu pedindo ajuda, não me neguei nem duvidei. Como Romário, são poucos no mundo”. (Diário do Pará)

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