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O esporte é de todos

13/12/2012

(Foto: Elcimar Neves )

O alvo, a meta, objetivo maior nunca foi a subida ao pódio. Surpreendida pela violência que bateu à sua porta quando viu o próprio marido ser assassinado enquanto trabalhava como segurança de um mercado, Ana Maria decidiu fugir à regra. Com três filhos para criar e já sem a ajuda do companheiro para tomar conta das crianças enquanto ela mesma trabalhava como faxineira, a doméstica viu no esporte sua ‘tábua de salvação’. 

A rotina de trabalho diária é intensa e fatigante, como a de muitos esportistas. Mas, com a responsabilidade de sustentar a casa sozinha pulsando todos os dias em seus pensamentos, ocupando músculos e nervos, Ana Maria não tem tempo para correr, não tem o costume de nadar, não pratica exercícios. Mas, diferentemente do que poderia acontecer com outras pessoas, ainda assim a doméstica mantém uma dedicação ao esporte. E essa entrega não vem dos próprios músculos. “Faz um movimento bem bonito Carol!”, grita ela para a filha, da lateral do tablado. “Salta direito Bernardo!’”. 

CAMINHO DO BEM

Identificado no esporte o melhor caminho para manter a violência afastada dos filhos, Ana Maria não pensou duas vezes e persistiu. Mesmo com pouca ou nenhuma possibilidade de conseguir o que tanto queria, a doméstica não se deixou desanimar. “Sempre soube que tinha esporte aqui [Escola Superior de Educação Física do Pará] e quando o pai deles morreu, vim atrás de uma ocupação para eles [filhos]”, lembra. “Lutei muito por essa vaga. Não tinha mais vaga, mas um professor aceitou que eu os matriculasse. Fiquei aliviada”. 

O alívio sentido por Ana Maria no momento da confirmação da vaga tem motivo. Sem ter quem acompanhasse a estadia dos filhos em casa após o colégio – enquanto ela ainda estava no trabalho – as aulas de ginástica olímpica e salto ornamental foram a forma de controle e cuidados a distância mais eficaz. “Moramos em um bairro muito violento. E enquanto eles estão aqui treinando, eles deixam de estar nas ruas aprendendo o que não presta”, justifica. “Isso aqui é tudo”. 

Desde que as vagas foram garantidas pela mãe, em 2006, a rotina da família mudou. Trazida pelo padrasto da mãe logo após o colégio, Bruna Carolina Soares, de 11 anos, encontra-se com o irmão Bernardo Soares, de 13, no local onde treinam os seus esportes preferidos. Enquanto os meninos estão no treino, da casa onde faz faxina, Ana Maria controla tudo. “Fico no telefone o tempo todo. É só ligar pra saber onde estão, se já estão treinando”. 

O objetivo principal de afastar os meninos das más influências foi cumprido. Mas o que Ana Maria acabou colhendo da sua insistência- nem sempre aprovada pelos que estão em volta - foi muito mais que a tranquilidade do coração de mãe. Acabaram também vindo louros: detentor do terceiro lugar no pódio do Campeonato Brasileiro de Saltos Ornamentais realizado em novembro deste ano em São Paulo, o filho Bernardo já começa a se destacar. “Como era a primeira vez que ele estava participando de um campeonato, pensei que ele só ia ganhar experiência. Fiquei surpresa de ele ter ganhado”, lembra. “A gente tenta encaminhar e tem pessoas que acham que esporte é coisa pra filho de rico. Até hoje sou criticada por isso, mas para mim esporte é coisa para todos”. 

Noutra ocasião, sem condições de acompanhar o filho na viagem para outro Estado, Ana Maria tomou conhecimento da vitória pelo telefone. Foi na manhã de um sábado, e no momento em que varria uma das casas em que trabalha como faxineira.

“Fiquei muito feliz. Eu até dei um gritinho”, orgulha-se. “Mãe, a senhora não tem vergonha de ficar gritando na casa dos outros?”, disse Bernardo, aos risos, do outro lado da linha. 

Da mesma forma que persistiu no primeiro contato dos filhos com o esporte, para que Bernardo conseguisse alcançar a vitória - lembrada todos os dias pela medalha que carrega para todos os cantos -, Ana Maria também teve que se movimentar. Além do trabalho realizado de segunda a sexta como empregada doméstica, à tarde é preciso pegar mais faxina. Apesar do sacrifício, a alegria supera cada gota de suor derramado pelo trabalho pesado. “Em tempo de competição, tem que pegar tudo o que aparecer”, conta. “Quando vejo que eles estão conseguindo se destacar, fico muito orgulhosa e vejo o quanto as pessoas [que não concordam com sua escolha] estão erradas”.

Já se preparando para o próximo campeonato brasileiro, Bernardo pretende subir pelo menos um degrau no pódio. Com o sorriso largo sempre estampado no rosto, ele não esconde a satisfação pelo próprio feito. “O campeonato foi de 9 a 11 de novembro. Eu não esqueço. Foi o dia que eu fui consagrado”, sorri. “Sou muito grato à minha mãe por tudo”. 

NOVOS SALTOS

Para além da posição ocupada nas competições, Bernardo também se sobressai pelas outras escolhas. Além do salto ornamental, o menino sabe bem o que pretende seguir quando chegar à idade certa. “Vou ser juiz. Tem muita criminalidade no mundo e, como juiz, eu tenho a responsabilidade de mudar o Pará pra que ele seja menos violento”, sonha. “Ele diz que vai dar um celular pra cada pessoa para que eles [população] liguem pra ele quando sofrerem algum tipo de discriminação. Ele diz que quando as pessoas ligarem pra ele, ele vai largar tudo pra atender”, sorri a mãe coruja. 

Seguindo os passos do irmão, Carolina também já participa de algumas competições de ginástica olímpica. Para ela, Bernardo é a inspiração. Quer ganhar medalhas assim como o irmão e também já escolheu a profissão que pretende seguir. “Quero ser professora de educação física. Acho legal. Tem a ver com esporte”. 

Diante da boa educação constatada na conversa dos filhos, Ana Maria não esconde a satisfação do esforço realizado diariamente para que os meninos tenham um destino diferente daquele de muitos jovens que moram no mesmo bairro que sua família. Independente do sucesso que conquistem, uma coisa é certa: os filhos continuarão no esporte até onde ela puder ajudar. “Meus filhos são guerreiros! Se não fosse o esporte, acho que eles já tinham se metido com coisa errada. Eles vão seguir com o esporte até ficarem adultos e pegarem seus próprios caminhos”. (Diário do Pará)

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