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Clube do livro

15/12/2012

(Foto: Sidney Oliveira )

Os números vêm à mente como se já fizessem parte de uma reflexão cotidiana. Envolto pelos milhares de exemplares que compõem cada espaço em branco do que antes já pode ter sido a sala de sua casa, Ericson Aires descarrega, com a naturalidade de quem conta uma história, a realidade que o fez tomar a decisão que mudou sua vida. “O Brasil é o oitavo país que mais produz livros. São 390 milhões de exemplares produzidos anualmente. Com isso, era possível dar dois livros para cada habitante do país e ainda sobrava. No entanto, 76% dos livros produzidos ficam com apenas 16% da população”, calcula.

Fisgado pela leitura ainda aos 17 anos, Ericson não poderia admitir que, a exemplo da situação observada no país, grande parcela dos paraenses também não tivesse acesso ao prazer proporcionado por um bom livro. Sem muito apoio da família e até de alguns amigos, o universitário e funcionário público deu início ao que, hoje, ocupa não apenas grande parte de seu dia, mas também, um dos cômodos da casa alugada que ainda lhe serve de moradia.

Improvisadamente instalado em um ponto da avenida José Bonifácio, Ericson empilhou seus próprios livros e deu início ao projeto que, antes de qualquer negócio, tinha o objetivo de se tornar um grande meio de popularização da leitura. “A ideia era democratizar e fomentar a leitura. Eu não tinha ideia de que estava fazendo um sebo”, afirma, ao lembrar do primeiro dia que disponibilizou seus próprios livros em uma ‘banca’ improvisada na rua. “Tudo surgiu de uma forma muito rudimentar e simples. Peguei os livros que tinha em casa e botei para vender. Vendi R$ 40 no primeiro dia”.

Independentemente do aparente sucesso financeiro observado logo na primeira tentativa, tendo em vista que muitos livros chegavam a custar apenas R$ 1,50, para ele o lucro nunca foi o alvo principal. “Enquanto o livro não for prioridade política, não vai haver uma democratização total. Quando eu comecei a ler passei a observar a importância que a leitura tinha. Foi uma descoberta. Por isso quis fazer alguma coisa pela sociedade”, justifica. “O sebo já teve várias formas. Teve uma época em que era ambulante, um carro que eu andava empurrando pela cidade. Com ele eu podia levar ao povo o que é negado”.

MORADA

Instalado hoje em um espaço bem maior que o inicial, em um novo endereço na avenida Tamandaré, o sebo de Aires começou com 3.500 exemplares. O acervo cresceu a partir de doações e compras efetuadas pelo próprio Ericson. Instalada ao fim de um corredor que se estende logo após o portão de entrada da casa, a sala destinada ao sebo já guarda surpresas à primeira vista.

Antes do espaço destinado aos livros colocados à venda, três prateleiras guardam obras que estão disponíveis gratuitamente a quem estiver disposto a levá-las para casa. Cada cliente ou visitante tem direito a ficar com dois dos cerca de 100 livros disponíveis para doação. Hoje disponíveis a qualquer dia, as doações surgiram a partir da ideia inicial de fazer sorteios uma vez por  semana. “A ideia era sortear 50 livros por sábado. No primeiro que fizemos isso, 40 pessoas apareceram. Aí resolvemos deixar disponível todo dia”, afirma. “Se dinheiro é problema, para a leitura não será mais”.

Apesar dos valores anotados atrás das capas de cada livro, isso não significa que eles não possam ser reavaliados. Na saída de um dos clientes que conheceu o sebo pela primeira vez, o sorriso de Ericson não escondia a satisfação. “Esse rapaz gostou muito de um livro que custava R$ 10, mas ele só tinha R$ 5. Levou um Neruda [livro do poeta chileno Pablo Neruda] por R$ 5”, gabou-se. Apesar de não ter sido a decisão mais rentável, acha que a atitude pode fazer alguma diferença na vida daquele rapaz. “O bom é que a gente tem o retorno do que os sebos podem proporcionar quando vemos a satisfação de uma pessoa ao levar um livro que ela queria muito pelo valor que ele tinha para dar”.

RODA LIVRO

Quando o sebo de Ericson completou cinco anos de existência, período em que teve que se recuperar de três falências, o apaixonado por livros também encontrou outra forma de proporcionar leitura a outras pessoas que se interessam. Com o projeto chamado Roda Livro, ele passou a disponibilizar livros em três pontos da cidade para que as pessoas pudessem levá-los para casa e devolvê-los aos locais depois de lidos. Em apenas um dos pontos, Ericson já vê resultado. “Coloquei 60 livros em um ponto e agora lá só temos 32. As pessoas estão lendo”, comemora. “Falam que os paraenses não gostam de ler, mas será que deram oportunidade para que essas pessoas pudessem ler? Essas pessoas já pegaram num livro?”.

Formada em psicologia, Mariane Trindade sempre teve uma boa relação com os livros. Independente do acesso possibilitado ao longo de sua vida, ela reconhece a importância de espaços como os sebos, onde é possível adquirir bons livros a preços mais condizentes com a realidade da maioria da população. 

“Isso é muito importante, principalmente para os estudantes que ainda não trabalham e que não têm condições de pagar tão caro por um livro. Fiquei sabendo do sebo pela minha mãe, que trabalha aqui perto. Vim procurar um livro de psicologia de uma edição mais antiga”.

Assim como Mariane, a maioria das pessoas que vão ao local ficou sabendo da existência do sebo através de outras pessoas que passaram pela frente e resolveram entrar. Para Ericson, esse é mesmo o perfil do espaço que, acima de qualquer valor comercial, ele prefere chamar de projeto. “Não existe uma preocupação maciça de divulgar. Não vivo do espaço. O que o sebo me dá não paga nem o aluguel”, garante. “A leitura não tem que ser uma coisa obrigatória. É espontânea. Esse projeto mudou a minha vida e vejo que também muda a de muitas pessoas que circulam nesse espaço”. (Diário do Pará)

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