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Um motorista do bem

16/12/2012

(Foto: Sidney Oliveira )

O relógio já marca 11h07. Ele chega atrasado. O suor lhe sufoca, mas ele sorri. Não tem tempo. Furta exatos três minutos, o suficiente para regar a garganta, ajustar a luva à mão direita e voltar ao posto. Há uma viagem inteira - e longa - pela frente. Uma conferida nos retrovisores, um pé solta a embreagem, o outro pisa o acelerador e o ‘163’  Bengui-Ver-o-Peso dá a partida. Walter Lopes, 38 anos, sete deles dedicados à profissão de motorista de ônibus, é quem guia.

Com o itinerário traçado na memória, contraria os ponteiros - tem de completar a linha ‘em uma hora e ciquenta minutos’ - e segue sem pressa. Augusto Montenegro, Almirante Barroso, Boulevard Castilho França. Vias movimentadas que uma a uma vão sendo vencidas. “O segredo da boa direção é a atenção, a prudência e a paciência”, ensina o motorista, que entre uma parada e outra ainda encontra tempo para a cordialidade.

“Bom dia!”, repete uma, duas, muitas vezes a voz grave que vem do volante vestida em um sorriso acolhedor que, se à primeira vista causa desconfiança, em seguida se confirma. “Esse motora é do bem. Não esquece do bom dia pra quem sobe no ônibus, dá informação e é atencioso.  Não é porque a imprensa tá aqui não. É sempre assim. Eu faço é gostar quando pego o ônibus com ele”, garante seu Raimundo Pinheiro, 61 anos, que já sobe os degraus puxando conversa. “Tem muito motorista que vira a cara. Que finge que não vê quando o idoso faz sinal. A diferença dele tá aí, porque ele não faz distinção”, elogia o soldador interrompido por outra passageira. “Sempre pego ônibus com ele. É conhecido já. Acho que ele é o motorista dos idosos, porque tem uma preocupação grande com a gente. Quando um idoso entra, ele sempre dá um jeito de agasalhar colocando os novinhos mais pra trás”, engata dona Maria Ivone.

Walter sorri sem deixar de ouvir, mas permanece alheio à conversa. Está focado no asfalto à frente, completamente ocupado quando o relógio já marca meio-dia. “Conversa de motorista é curta. A gente tem que ficar ligado no trânsito. Um deslize e acabou o esforço do bom trabalho”, justifica o motorista, que nem de longe demonstra o cansaço de quem levantou às cinco horas, enfrentou avenida Augusto Montenegro em dia de protesto e  acaba de completar seis horas na direção. Barulho, calor e fumaça. Nada parece abalá-lo. “É a minha profissão tenho que ter bom humor e responsabilidade”, resume o motorista durante o terceiro – e último – percurso do dia.

SINGELEZAS

 “Cada viagem é uma viagem, mas tem o que a gente sabe que vem pela frente. Todo motorista em Belém sabe que vai pegar engarrafamento e passar calor. Tem colega que não consegue deixar os problemas em casa, aí com o trânsito piora e faz o trabalho estressado, com cara feia. Eu tento ser diferente deixando os problemas de casa em casa. Já chega o estresse do trânsito. Boa educação não custa”, engata o motorista no mais longo diálogo do trajeto. E a viagem segue.  

A roleta gira. São mais de 100 registros. Enfrentando a sensação térmica de 35 graus, a universitária Fernanda Campos, 24 anos, soma-se ao número e nota a diferença. “São atitudes simples que fazem o nosso dia melhor. Os motoristas são muitas vezes mal vistos pelo estresse que o trânsito causa. Encontrar um profissional assim, que faz a diferença, reacende a esperança de um lugar melhor para o futuro. Ele está de parabéns”, avalia a jovem.

 Contagiado pela descontração do companheiro de trabalho, o cobrador Márcio Santos, 36 anos, inspira-se. Em 14 anos de profissão, ele confessa. “Como ele [Walter] são poucos. Tá sempre rindo, não esquenta a cabeça. A gente acaba entrando na onda. É bom poder trabalhar com ele”, diz dando risada. Walter acompanha pelo retrovisor e gosta. “São seis meses com essa figura”.

A velocidade segue constante, o 163  vai chegando ao seu destino final. O relógio marca 13h35. Walter vai voltar pra casa. O ‘salmo 91’ afixado a próprio punho ao painel do coletivo não fica. É companhia que ajuda na segurança de quem ‘não teme o terror de noite nem a seta que voa de dia’. Na manhã seguinte tudo se repetirá. (Diário do Pará)

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