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Uma outra cidade ao volante

17/12/2012

(Foto: Bruno Carachesti )

O nome do perito não lhe sai da memória. Temido por muitos dos que pretendiam conquistar a tão esperada carta de motorista em meados de 1972 em Belém, Pereira foi o responsável não apenas por aprovar o desempenho apresentado por Albele Azevedo no volante naquele dia, mas também, por evidenciar uma característica mantida por ela até os dias de hoje. “Ninguém passava com ele. Eu passei de primeira e no final do teste ele ainda disse para mim: ‘você dirige muito bem’”.

A satisfação sentida pela aposentada sempre que as lembranças da frase dita ao final do teste lhe vêm à mente não é à toa. Com 68 anos de idade e 40 de direção, Albele orgulha-se de, em tanto tempo de trato com o trânsito da capital paraense, não ter acumulado nenhuma multa e não ter registro de participação em nenhum acidente. “Eu sempre deixo aquele espaço de segurança do carro da frente para uma emergência”.

Assim que se senta atrás do volante, além do som que liga automaticamente em suas músicas preferidas, o que também acende é a atenção de Albele. Sempre que ela se propõe a dirigir – o que acontece várias vezes ao dia, todos os dias da semana -, ela faz questão de tomar cuidados  não apenas pela sua segurança e de seus passageiros, mas também, pelo bem-estar de qualquer um que pare o carro ao seu lado. “A gente tem que dirigir pelos outros também”, pondera ao apresentar algumas das estratégias. “Evito falar ao celular, acho que ele realmente tira a atenção. Não sou audaciosa de fazer o que eu não posso”.

Com a quilometragem já percorrida a se perder pela memória, não há problema admitir que, por vezes, não é fácil manter o controle absoluto sobre tudo o que acontece no trânsito. É preciso paciência. “Não provoco ninguém e não gosto de ser provocada. Se não tiver autocontrole, a gente acaba se irritando”, considera. “Tem que ter paciência. Quando eu quero me irritar, respiro fundo, ouço uma música gostosa para não perder o controle”.

Independente do bom desempenho no cumprimento das leis de trânsito – um feito atestado pela própria carteira de motorista -, Albele faz questão de evidenciar, também, seu desempenho nas ruas. Com as mãos firmes no volante os olhos atentos à frente, a segurança da direção fica clara. Para ela, diferentemente do que muitos possam pensar, a idade conquistada com o decorrer da vida pesa positivamente no momento de sair com o carro. “O idoso, pela própria experiência, é mais cuidadoso. É uma experiência que se tem que ter, para saber se dá tempo de ultrapassar aquele camarada, para saber o que fazer quando alguém te corta de repente, se aquele espaço é suficiente para fazer a baliza”, justifica. “Não é que eu seja certinha, mas gosto de andar dentro da lei. Não sou aquela pessoa que anda lento, atrapalhando todo mundo, mas sou prudente. Ultrapasso se puder ultrapassar”.

DIREÇÃO É PRAZER

O momento em que as ultrapassagens são mais requisitadas é, também, o que a aposentada mais gosta. Com programação já certa para os feriados prolongados, ela não titubeia quando precisa enfrentar a estrada. Movida pelo prazer proporcionado pela direção, durante as viagens, ela também segue um ritual particular. “A única estrada que pego hoje é a de Salinas, mas já fui pra Fortaleza, São Luís e nunca tive problema”, afirma. “Saio daqui cinco da manhã [em direção a Salinas] para não ter nenhum problema. Sempre controlo esse horário para não pegar engarrafamento e nunca vou só na viagem”.

O acúmulo de experiências positivas no trânsito é atribuído, por Albele, ao gosto que mantém, desde mais jovem, pela direção. Não raro, a aposentada pega as chaves do carro e sai de casa sem compromisso exato. “Eu adoro dirigir. Dirigir é o que eu mais gosto de fazer. Todo dia saio de carro. Vou ao shopping sem ter nada para fazer, rodo, rodo, rodo...”, enumera ao lembrar que consegue passar a manhã inteira dirigindo sem nem se dar conta do tempo que já está fora de casa. 

Para além das conquistas obtidas a cada volta segura para casa, a prudência e bom desempenho no trânsito também já começam a gerar frutos que, por vezes, passam despercebidos pela aposentada. “Eu tenho três filhos e todos dirigem bem. Agora, a minha neta acabou de tirar a carteira e eu falo para ela: ‘Tente dirigir por você e pelos outros’”,  sorri.

Albele sempre dirigiu muito. “Sempre tive carro. O trânsito, há quarenta anos atrás, era uma beleza”. Mas independentemente das mudanças sofridas por um trânsito cada vez mais carregado de veículos, ela tem a certeza de que pretende continuar dirigindo até quando a saúde lhe permitir.  “Se eu tiver saúde, vou continuar dirigindo. Quero dirigir por muito tempo inda. Não gosto de ficar parada”. (Diário do Pará)

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