NOTÍCIAS

Uma era chamada amizade

19/12/2012

(Foto: Mauro Ângelo )

Belém era diferente. O acesso ao ginásio – hoje ensino fundamental - era conferido mediante exame de seleção. A última moda em uniformes escolares femininos incluía meias brancas, sapatos pretos e saias em pregas caprichosamente à altura dos joelhos. Era 1962. A tímida Silvia Flores e a extrovertida Regina Mendonça cruzavam os portões do imponente Instituto de Educação do Pará (IEP) pela primeira vez. O tempo não tardaria em agir.

Postas a mesma sala graças ao ‘S’ e ‘R’ dos nomes – as iniciais determinavam a formação das classes – as ainda meninas logo se aproximaram. “Não lembro exatamente o dia em que ficamos amigas, mas foi rápido. A empatia foi imediata”, diz a vaidosa Regina, que por motivo nenhum revela a idade. “Eu te digo que tenho 62. Aí você pensa um pouco e fica fácil saber quanto ela tem”, trai Silvia, como se pregasse uma típica ‘peça’ de amiga adolescente, 50 anos após as primeiras confidências que selaram a amizade que ultrapassou os muros da escola sem grandes dificuldades.

“No meu aniversário de 15 anos, a mamãe perguntou se eu tinha convidado as minhas amigas. Era véspera da data e eu, desligada, não tinha chamado ninguém. As fotos são muito engraçadas, porque a única amiga que aparece é a Regina, que foi única a topar ir em cima da hora. Coisa de amiga mesmo”, recorda Silvia, apontando, sob reclamação da amiga, sobre a foto em preto e branco que registrou o momento ‘do parabéns’.

“Mas tu vais mostrar essa foto com a gente exibindo esses cabelos!?”. E uma grande risada rasga a manhã nublada que pouco incomodou as amigas, novamente reunidas em frente ao colégio que testemunhou o nascimento da resistente amizade.

Ao longo dos anos, as duas seguiram carreiras diferentes - uma é assistente social, a outra, química industrial. Jamais perderam o contato. Regina é madrinha de crisma de Silvia, que é madrinha de batismo de uma das filhas de Regina. E as afinidades não param por aí.

“A amizade ficou tão forte que a gente incorporou outras amizades. Hoje, somos quatro”, sorri Regina, em referência à assistente social Luzinete Burnett, 63 anos, apresentada a Silvia por seu intermédio, e à química industrial Vera Braz, incorporada ao grupo via Silvia.

“É uma amizade bonita de se ver porque sobrevive ao tempo, à pressa da modernidade, às diferenças de cada uma. É algo que não vemos mais”, reflete Vera, enquanto Luzinete recorda. “Somos amigas [ela e Regina] desde a infância porque éramos vizinhas, mas nunca houve ciúme uma da outra. É uma amizade realmente sadia essa nossa”, comenta entre as conversas mil que vêm à tona a todo instante no grupo. Dos penteados da época à sujeira e ao trânsito intenso do local atualmente.

Entre uma recordação e outra, a amiga mais retraída se esforça e lembra. “Nunca fomos de intriga e havia pouca confidência em relação a meninos da minha parte, porque eu era pateta e só namorei quando entrei na faculdade”, revela. “Ela, não. Cansei de segurar vela. Namorados, maridos, família, todos sempre souberam da nossa proximidade”.

A afinidade é forte mesmo. Silvia enfrenta uma timidez colossal para declarar sua amizade a Regina.

“Nossa amizade permaneceu graças às longas diferenças que nos unem. A grande verdade é que nós duas nos completamos. Não precisamos falar nada para nos entender”, diz, fitando a amiga ao lado, que responde com o sorriso - tão frequente durante a conversa. “A modernidade tenta nos afastar, mas a gente resiste. Estamos juntas em eventos de família, aniversários, Dia das Mães, Natal. Há semelhanças nas nossas diferenças e isso mantém a nossa amizade intacta. Ela é a minha consciência, fala exatamente o que preciso, embora não queira ouvir. Isso é amizade verdadeira”, decreta Regina, encaminhando o encontro e a conversa à reta final.

Em instantes, cada uma seguirá seu rumo. Nunca sozinhas. A amizade vai ali. Sempre ao lado. (Diário do Pará)

MAIS NOTICIAS

CIDADE LIMPA

O Brasil do papel moeda

27/07/2014

CIDADE LIMPA

Sonhos no papel

27/07/2014

CIDADE LIMPA

O alumínio e o Brasil

20/07/2014

CIDADE LIMPA

Um coração de lata

20/07/2014