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A mágica travessia da leitura

21/12/2012

(Foto: Daniel Pinto )

O caminho de terra batida aponta a direção. É na estreita rua do Japonês, no afastado bairro do Bengui, que por trás de uma parede de madeira um horizonte inteiro se descortina a pequenos e pequenas paraenses. Realidade, fantasia, sonhos e certezas. Tudo bem ali. Ao toque dos dedos. Ao passear do olhar.

Era 2002. A professora Ana Cabral, 54 anos, participava de um encontro de formação de mediadores de leitura na área rural do município de Castanhal quando teve a ideia. Viu o exemplo da comunidade João Batista e resolveu levar o mesmo projeto para a escola onde trabalhava, a Emaús. “Achei encantador aquele efeito de aproximação das pessoas proporcionado pelos livros naquela comunidade. Quis trazer a experiência para mais perto”.

O primeiro passo foi procurar a Vaga Lume, uma organização não-governamental famosa por fundar bibliotecas nos confins da Amazônia, e oferecer-se como voluntária. Daí em diante, foi questão de tempo. O que começou com a proteção dos muros da escola logo ganhou asas rumo à vizinhança.

“Os alunos liam e pediam os livros emprestados para levar para casa, mas eu ainda sentia falta de alguma coisa. Queria sentir aquela proximidade das pessoas que vi na comunidade de Castanhal e fui para rua ler de porta em porta”, recorda a educadora, revirando os últimos cinco anos vivos na memória.

LIVROS EM CASA

O compromisso tinha data e hora marcadas. Duas por semana, sempre ao cair da noite. Ana não sabia, mas em meio a clássicos da literatura, uma nova epopeia era escrita. A chegada de duas novas personagens foi fundamental. A auxiliar administrativa, Patrícia Gomes, e a dona de casa, Janaina Alves, surgiram para ajudar a mudar o rumo da história.

“A gente começou a ver que a leitura estava chamando a atenção da comunidade e não dava mais pra continuar na rua, nem ficar só na escola. Em 2007 a biblioteca se mudou para a sala da minha casa. Era apertado e às vezes as crianças tinham que ficar do lado de fora, porque ficava lotado, mas era o único espaço que tínhamos”, conta emocionada a voluntária Patrícia, sentada na nova biblioteca comunitária Amigos da Leitura, que migrou da sala para o terreno vizinho por ela mesma doado. “A gente tinha esse terreno e a batalha foi pra conseguir montar. É o espaço da biblioteca. Ninguém mexe”, atesta.

O espaço é simples. Pufes e tapetes coloridos deixam quem chega à vontade. Os calçados são proibidos: ficam guardados à porta. Em estantes e prateleiras, os livros se espalham e exibem. São coleções tradicionais, exemplares infantis, artesanais e até de pano. Mais de 1.800 livros capazes de hipnotizar.

FORÇA E HÁBITO

A biblioteca recebe gente de todas as idades. A maioria, porém, é de jovens e crianças, e os perfis de leitores são os mais diferentes. “Tem quem chegue tímido, quem prefere levar o livro pra casa, quem procura sempre as mesmas histórias, e tem até os menores, que ficam nos ouvindo. As pessoas acham que em um bairro como o nosso, a leitura não atrai ninguém. A gente sabe que atrai. Eles só precisam ter acesso”, aponta Janaína, outra das voluntárias.

A dona de casa lança um olhar carinhoso para a biblioteca. Não esquece os dias difíceis. “Isso aqui era um alagado só. Muito mato e muita lama. Houve um esforço enorme e muita persistência para conseguirmos erguer esse espaço. É um sonho realizado que nos enche de satisfação”.

Além de voluntária dedicada, Janaína vês os filhos trilharem o mesmo caminho. O pequeno Lucas, de 7 anos, é leitor assíduo, e a jovem Tássia, de 16, comemora o título de mediadora mais jovem da associação Vaga Lume.

“Começou com a Ana me convidando para uma roda de leitura ainda em frente de casa. Eu fui, gostei e acabei ficando. Sempre gostei de ler. Aí comecei a ler para os outros e caí no hábito. Cheguei a ler cinco livros por dia. Não me vejo sem isso aqui. É muito bom unir trabalho voluntário com prazer pessoal”, justifica a menina, demonstrando que o enredo tem final feliz garantido. (Diário do Pará)

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