NOTÍCIAS

Alimento da alma

23/12/2012

(Foto: Marco Santos )

São seis horas da manhã de sábado. O fiscal da companhia de água de Belém Alberto Braga se prepara. Em mais alguns minutos, estará lavando e cortando verduras e separando ossos que recebe como doação de um açougue. Vai temperar com amor aquilo que será o alimento de mais de 80 famílias por pelo menos os próximos dois ou três dias.

Há 13 anos ele assumiu a responsabilidade de coordenar a “Sopa dos Assistidos”, um projeto idealizado por padre Gonçalo, que na época coordenava a paróquia de São Miguel, no bairro da Cremação, em Belém. Foi a mãe de Alberto, dona Guiomar Barbosa, hoje com 83 anos, quem deu o primeiro passo. Em 1992, ela assumiu a cozinha da paróquia e ali ensinou o filho a doar parte de si para o próximo.

“Minha mãe também chegava aqui bem cedo e me trazia para ajudar no preparo da sopa. Aqui eu comecei apenas ajudando ela na higienização das verduras. Quando ela não pôde mais vir, por já ter chegado em uma idade bastante avançada, eu assumi a tarefa”, conta Alberto, entre um trato e outro com os legumes. Aos poucos, os ingredientes da sopa vão enchendo a grande panela.

Desde 1999, Alberto tem o compromisso de chegar cedo e colocar a mão na massa. E se agrada de ver depois o sorriso das pessoas que vêm buscar os mais de 80 litros de sopa. E ele não está sozinho na tarefa. Conta com a ajuda de mais alguns voluntários.

Não fosse assim, não haveria a sopa dos assistidos, servida há 20 anos na paróquia, todos os sábados. Com a colaboração de pessoas da comunidade, vêm a massa doada do macarrão, as verduras, a carne e um botijão de gás por mês – o que não é o suficiente, já que é utilizado um gás por semana para os quatro panelões.

Os “assistidos” não são apenas pessoas do bairro da Cremação. “Vem gente de tudo que é canto: Icoaraci, Marituba... As pessoas ficam sabendo que aqui a gente não serve apenas um prato de sopa, e, sim, um balde cheio para cada família”, afirma Alberto, de olho na sopa, atento para não perder o ponto para servir. Antes do meio-dia as dezenas de famílias já chegaram todas à paróquia.

A tarefa de deixar a tranquilidade da família no sábado não é fácil. Alberto, semanalmente, dedica o seu dia de folga no trabalho à ação. “Da feita que a gente pega o gosto, vê o sorriso das pessoas, vê a felicidade de cada ‘assistido’, não há problema que seja maior”, justifica.

A sopa dos “assistidos” vem acompanhada de orientações da medicina preventiva. Alguns outros voluntários da paróquia de São Miguel atuam na área da saúde. Se juntam, fazem o cadastro e atendem um por um os que vão em busca do alimento e querem também alguma melhoria na qualidade de vida.

“Pessoas que têm glicose alta, hipertensão ou qualquer outro problema de saúde são orientadas. Queremos que, de alguma forma, elas possam buscar o atendimento correto em um centro de saúde”, conta o voluntário José Evandro, que faz parte da pastoral da saúde.

BÁLSAMOS

Há cinco anos a aposentada Berenice da Silva, 70, vem buscar a sopa em um balde pequeno. Ela faz parte do grupo de pessoas que encontra na distribuição da sopa não somente o alimento para o corpo, calejado pelos problemas diários da artrose. “Levo para casa, e lá tomo por dois ou três dias, quando dá. Isso para mim é uma grande ajuda. Quando não posso vir fico muito triste. Aqui eu também me distraio com as palestras que são dadas e com as amizades que fiz”, conta a anciã, enquanto faz o lanche da manhã na companhia de mais duas amigas.

Há seis anos à frente da paróquia, o padre Moacir Robledo acredita que em algum momento a distribuição de sopa não será mais necessária. “Chegará um dia em que as famílias serão prósperas e não vão mais depender da sopa que lhes é dada”, sonha o pároco. (Diário do Pará)

MAIS NOTICIAS

CIDADE LIMPA

O Brasil do papel moeda

27/07/2014

CIDADE LIMPA

Sonhos no papel

27/07/2014

CIDADE LIMPA

O alumínio e o Brasil

20/07/2014

CIDADE LIMPA

Um coração de lata

20/07/2014