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Uma história de Natal

24/12/2012

(Foto: Thiago Gomes )

Os nomes realmente parecem que não foram dados à toa. As irmãs Deusimeiry, 52, e Deuzimar Filgueiras, 53, são mesmo divinas. Em dezembro de 2008, inspiradas por outra irmã, Raquel, as duas uniram a família e alguns amigos para aquela que seria apenas mais uma distribuição de presentes natalinos. Braços dados, quatro anos depois, espreitam da frente de casa o fortalecimento diário de um exército. O ‘Seja Solidário’ cresceu.

Nas mãos firmes da professora Deuzimar, uma pasta cataloga a trajetória. Fotos e legendas manuscritas contam o que começou com uma tragédia. Recém-instalado na ocupação ‘Duas irmãs’, no bairro da Pratinha, o filho de Deusimeiry acabou assassinado na área recém-tomada e ainda muito violenta. A mãe sentiu a própria vida ser tomada de assalto, mas acalantou o coração e ergueu a cabeça. Mudou-se para o bairro, demonstrando a força das mulheres Filgueiras.

“Fomos eu e Deus. E ali comecei a ver muita carência. Como ‘parteira curiosa’ [Deusimeiry diz não ter formação] eu comecei a orientar a comunidade. Providenciava uns remédios caseiros, puxava uma barriga e estava sempre perto das crianças. Assim fui fazendo amizade”, conta a dona de casa que, sem saber, plantava a semente. Um ano depois, esse foi o elo quando a irmã, vinda do interior, insistiu em montar uma ação de natal para pessoas necessitadas. Sete famílias foram selecionadas. Ao todo, 35 crianças. “Seria só aquele dia. Uma mesa farta, a distribuição de presentes e só. Mas no final de toda aquela festa a gente já estava se perguntando quando seria a próxima”, relembra a irmã.

Daí veio a ideia dos ‘padrinhos’ e ‘madrinhas’, hoje são 87 pessoas responsáveis por pelo menos uma criança. “Começamos a fazer ação para distribuição de material escolar, páscoa, dia das mães. O afilhado é adotado como filho. Nós distribuímos kits para cada data. As nossas filhas, os amigos, todos participam e têm uma função”, descreve Deuzimar, com olhos brilhando. “É satisfatório”. O Seja Solidário atende hoje 105 crianças. A meta de chegar a uma centena este Natal foi facilmente ultrapassada.

As famílias são selecionadas pelas Filgueiras, considerando como pré requisito básico a dificuldade financeira. Exige-se dos pais a matrícula regular dos filhos na escola. Eles recebem palestras sobre planejamento familiar, saúde e educação, tudo na casa de dona Deusimeiry, que voltou a morar no Bengui e transformou a sala em uma extensão do pátio. “O espaço era muito pequeno para todo mundo. Então resolvi desmanchar a parede da sala para colocar as cadeiras e acomodar melhor as pessoas, os brinquedos e os livros que a gente recebe em doação. Eu não preciso de mais que um cômodo e um banheiro para viver. Meu sonho hoje é poder construir um kit net no fundo do quintal e transformar todo o resto em um espaço voltado ao projeto”, revela com simplicidade a dona da casa.

Além de organizar as ações, ela ainda atende a criançada da vizinhança com dúvidas da escola. “Não tenho muito estudo, mas o que sei eu passo. O mais difícil é a Matemática, que mudou muito”, descontrai Deusimeiry.

“Essas crianças me devolveram a vida que eu tinha deixado lá atrás com a morte do meu filho. Elas me deram alegria e foram muito úteis para mim. Não são elas que precisam da gente. Sou eu que preciso delas”, afirma a dona de casa entre lágrimas, logo enxugadas. “Ainda vamos ver mais e mais famílias atendidas. Uma biblioteca, aulas de capoeira, cursos. Tudo dentro do projeto”, enumera os desejos, que bem poderiam chegar às mãos do Papai Noel. O bom comportamento durante o ano todo sobrou. (Diário do Pará)

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