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A aventura da diferença

22/10/2013

(Foto: Marco Santos/Diário do Pará )

Quase dois milhões de paraenses são cidadãos com deficiências. Mas suas histórias são iguais às de milhares que vêm superando desafios e lutam por mais respeito e políticas públicas

No Pará, 47. 982 pessoas têm deficiência visual, auditiva ou motora, segundo dados do censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A estudante de história Siblya Karina Gomes, 19, é uma delas. Depois de perder a visão aos seis anos, a universitária teve que se adaptar à nova vida e garante que a limitação não impediu os projetos. “É só um detalhe. Nada te impede de ter vida própria”, avalia.

O panorama das pessoas com deficiência no Pará, marcado por exemplos de superação como o da estudante Siblya, é o tema da primeira matéria da segunda etapa da série especial ‘Agente do Bem’ - que o Projeto Orgulho de Ser do Pará veicula ao longo de 45 dias no jornal DIÁRIO DO PARÁ e na RBATV. Ao todo, são 24 matérias tratando do universo da terceira idade e também das pessoas com deficiência no Estado, enfocando contextos de urbanidade e ações positivas de personagens inspiradores e agentes que promovem a inclusão e acesso a direitos e à cidadania.

HISTÓRIA NAS MÃOS

Aluna de escola pública durante toda a vida, Siblya passou “de primeira” no vestibular da Universidade Federal do Pará (UFPA) e mesmo na fase inicial do curso, já tem planos traçados. “Eu quero concluir a graduação, fazer especialização, ingressar no mestrado”, almeja a universitária, que ingressou no ensino superior por meio do sistema de cotas.

Ainda menina, perdeu a visão primeiramente de um lado e em pouco tempo, do outro olho. “Nasci com síndrome neurológica e tive que colocar uma válvula na cabeça, que comprimiu o nervo óptico”, explica Siblya. “Eu era criança, não entendia muito. Fui aprendendo e me adaptando ao mesmo tempo”.

A deficiência visual total não foi problema em sala de aula, nem em qualquer outro momento da vida, garante a estudante. “Fui incluída na turma normalmente, como qualquer outra aluna. Os professores sempre foram orientados a falar durante a aula”. 

A tecnologia tem ajudado no processo educacional. Siblya grava o áudio da explicação dos professores, passa para o computador e assim revisa o conteúdo do dia. “Também digitalizo o material e uso de um programa de voz. Os textos são lidos pelo computador. Tudo o que vier para ajudar é válido. Antigamente não tinha essa facilidade. A gente não pode parar nos obstáculos, tem que dar um jeito”.

Na universidade, os desafios não param na sala de aula. “O terreno é bem acidentado, espaço amplo, não possui muitas rampas”, lista. Nessa hora, a independência e ao mesmo tempo a ajuda dos amigos são fundamentais. “Meus amigos em ajudam, tenho colegas muito prestativos”, agradece.

Segundo a Associação Paraense de Pessoas com Deficiência (APPD), a mobilidade de Belém é deficitária e compromete o ir e ir de qualquer pessoa, mas, sobretudo, dos portadores de deficiência. “Até que a cidade começou a fazer medidas para a acessibilidade, como nas calçadas, mas ainda não é suficiente. Foram medidas pontuais, somente”, avalia o assistente social Jordeci Santa Brígida.

A APPD tem aproximadamente 35 mil associados em todo o Estado. A entidade existe desde 1981, que foi o Ano Internacional da Pessoa com Deficiência, decretado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Santa Brígida lembra ainda que as capitais e municípios têm até 2014 para cumprir metas de acessibilidade.

Na avaliação da APPD, a Cidade das Mangueiras ainda precisa avançar na acessibilidade para atender às necessidades dos portadores de deficiência. “Não vejo nenhuma ação do poder público municipal ou estadual. Faltam políticas públicas para os portadores de deficiência, ações em saúde, esporte, transporte e quebra de barreiras públicas”.

No Pará, a deficiência mais frequente é a motora. De acordo com dados do censo 2010 do IBGE, 21.239 pessoas têm deficiência motora total. Outros 125.571 possuem grande dificuldade de locomoção. A segunda deficiência mais comum no Pará é a visual. No Estado, 15.459 pessoas têm cegueira total.

Para Siblya, as dificuldades são como um trampolim. Com o tempo corrido, algumas atividades foram temporariamente interrompidas. Mas só temporariamente. “Pretendo voltar às aulas de inglês e dança a partir do ano que vem”, conta. O curso de história é só o começo para a jovem que sempre teve afinidade com a profissão escolhida. “Sempre gostei de filmes que tinham histórias antigas, clássicas. Quando enxergava assistia muito esses filmes”.

Assistir filmes é um prazer mantido até hoje. Caseira, Siblya tem como programa preferido ir ao shopping e ao cinema. Mesmo sem ver as imagens que passam na grande tela, os outros sentidos captam todas as sensações que a sétima arte transpassa. “Como enxerguei alguns anos, ouço e vou imaginando”, conta.

O Estado possui 11. 284 surdos. Já 297. 723 têm grande dificuldade auditiva, aponta o IBGE. Ao todo, no Pará 1.790.289 pessoas têm pelo menos uma das deficiências investigadas, do total de 7.581.051 habitantes paraenses. Para Siblya, a forma como a sociedade encara o deficiente depende da postura do próprio deficiente. “Nunca fui vítima de preconceito. Não sou do tipo de pessoa que se coloca na posição de coitada. Quando a gente age como coitada é tratada como coitada”, sorri.

(Diário do Pará)

 

No Pará

1,7 milhão de pessoas têm pelo menos um tipo de deficiência no Estado. A mais frequente é a motora.

47,9 mil têm deficiência visual, auditiva ou motora no Pará.

21,2 mil pessoas têm deficiência motora total. Um total de 125.571 possuem grande dificuldade de locomoção.

15,4 mil têm cegueira total. É a segunda deficiência mais comum no Estado.

11,2 mil são surdos no Pará

297 mil têm grandes dificuldades auditivas.

Fonte: IBGE

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