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Craques em superação

26/10/2013

(Foto: Cezar Magalhães/Diário do Pará )

Seis na linha e um no gol. Dois tempos de 25 minutos com 10 de intervalo. Nesta partida, a habilidade com as mãos determina o nível do jogador. São elas que dominam as muletas e dão o fôlego necessário para o chute. O corpo forma um pêndulo no impulso para atingir o gol ou dar início ao contra-ataque.

Futebol é futebol em qualquer lugar do mundo. Os limites do campo e a quantidade de jogadores podem ser menores do que nos jogos oficiais de quarta- feira à noite ou domingo à tarde, mas a vontade de jogar e a ânsia de ganhar são as mesmas.

Em campo, jogadores paralisados cerebrais e amputados. Todos fazem parte do time da Associação Paraense de Pessoas com Deficiência (APPD-PA). Esses amantes do esporte e atletas especiais, que transformam das suas aparentes limitações em um novo estado de espírito de afirmação e superação, são o tema de mais uma matéria da segunda etapa da série especial ‘Agente do Bem’ - que a Campanha Orgulho de Ser do Pará vem veiculando no jornal DIÁRIO DO PARÁ e na RBATV. São 24 matérias que trazem exemplos de urbanidade e ações positivas de personagens inspiradores e agentes que promovem a inclusão e acesso a direitos e à cidadania.

PAIXÃO

A pelota é a melhor amiga do bancário Paulo Farias, 50. Apaixonado pelo esporte trazido ao país por Charles Miller, Paulo viu na bola a saída para a prisão que ele mesmo criou. Depois de um acidente de trabalho aos 21 anos, passou por dificuldades de aceitação. “Durante 10 a 15 anos eu parei na vida, me enfurnei. Esqueci de viver”, lembra. Aceitar a si próprio foi como driblar um zagueiro experiente.

Uma reportagem na televisão mudou as perspectivas de Paulo. Não foram as palavras de incentivo ou a emoção. O que chamou a atenção foi a esfera que percorria o campo.  “Quando vi, a primeira coisa que pensei foi: é a minha chance de jogar futebol de novo”, recorda. 

Mais do que um esporte, o futebol representa a chama da vida para o bancário. Assim foi desde a infância. Perder a perna foi mais do que um trauma para o homem que vivia o auge da juventude e sonhava – assim como tantos outros garotos – jogar na Seleção Brasileira.

O sonho de menino foi realizado. Vestindo a amarelinha, Paulo Farias foi vice- campeão mundial em 2001, pelo futebol de sete para amputados. No ano seguinte, continuou no time principal. As lembranças vão além das partidas marcantes, gols, dribles feitos e vitórias arrancadas. “Consegui construir a minha casa”, comemora.

No ínterim entre a reclusão e o reingresso no futebol, as oportunidades passaram. Em todos os campos. “Passei muito tempo desempregado, sem estudar, sem fazer nada”, conta entristecido. A explicação hoje é vista com constrangimento. “Fiquei com vergonha de só ter uma perna”, admite.

O contato com a APPD, associação que reúne 35 mil portadores de deficiência em todo o Estado, foi determinante para a recuperação da autoestima. “Me adaptei muito rápido e é uma coisa que a gente gosta”, diz Paulo, referindo-se ao futebol. A virada no ritmo de vida foi tão marcante quanto as medalhas já conquistadas. “Não só no esporte, no trabalho também fez toda a diferença. Trabalho no banco hoje graças a APPD”, reconhece. “Mudou tudo na minha vida”, analisa.

O ataque é a marca de Paulo. A posição que ocupa nas quatro linhas e a postura que escolheu para encarar as adversidades. A quebra de paradigmas foi de dentro para fora. Hoje, só abaixa a cabeça para analisar o curso da bola. Já antecipa os movimentos e prevê as jogadas. Também exige mais de si. “Foi muito forte”, esbraveja em voz alta praguejando o chute que não deu chance ao parceiro de time para arrancar o contra-ataque. 

Não ter uma perna passou a ser meramente um detalhe. “Tem que ter habilidade e saber dominar a muleta”, fala como quem dá conselhos a um moleque que acabou de perder um pênalti. Jogar o futebol de sete também tem outras vantagens. “No futebol de amputados não tem limite de idade. É só se cuidar que não fica de fora da competição”, observa. 

“Tô com 50 anos e não pretendo parar”, garante Paulo que só reclama das dificuldades de acessibilidade. “É um sufoco chegar aqui. Pego três ônibus, mas venho todos os sábados. Não gosto de perder nenhum treino”. 

NA SELEÇÃO

Para Antônio Maia, técnico e coordenador do Projeto Esporte Cidadão, a interação é um dos pontos altos dos times de amputados e paralisados cerebrais da APPD-PA. “O principal aqui não é a competição, mas vir praticar o esporte. É o processo de formar o cidadão”, sintetiza. Ele faz questão de contar o feito de Elizeu dos Santos. “Ele foi eleito o melhor jogador de futebol para amputados e era daqui, da APPD”. 

O time de futebol de PC (Paralisados Cerebrais) da APPD existe desde 1993. A modalidade obrigatoriamente precisa mesclar atletas das classes 5 a 8 – que determinam o grau de paralisia. O time é vice- campeão Brasileiro da segunda divisão. Com o feito, subiu para a série A.

Nem Remo, nem Paysandu. O time paraense que tem elenco de série A do Brasileiro é o de futebol de PC da APPD. Ou pelo menos em tese. “A gente conseguiu subir para a série A, mas não conseguiu reformular a equipe para montar o time e disputar o campeonato”, lamenta o técnico. De acordo com Antônio Maia, o futebol de PC é a modalidade que mais cresce entre os deficientes. 

Ele comemora as descobertas de talentos, como um olheiro que vê em um moleque magricela a aposta do futebol europeu. Apontando para o campo, indica Jorge Magno, a quem define como um “atleta que tem grandes oportunidades de estar nas Paraolimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro”. E é esse o objetivo do rapaz de 23 anos.

Atuando na Seleção Brasileira, Jorge pretende primeiramente se manter entre os 15 convocados. “Quero ir pro Rio de Janeiro e trazer uma medalha para o nosso Estado. Também pretendo disputar o Mundial de 2015”, sonha o jovem desempregado que não tinha sequer uma chuteira decente para jogar durante os testes. “A que eu tinha estourou e eu tive que pegar uma emprestada, de um número maior que o meu”.

A curto prazo, Jorge quer jogar a série A – onde estão as elites do futebol brasileiro. Dois clubes de outros estados estão interessados no passe do atleta. Ser jogador das potências do futebol. Jogar na Seleção Brasileira. Os sonhos são os mesmos de tantos outros. Sonhos independem de limitações. São universais, como a bola que rola entre quatro linhas. 

(Diário do Pará)

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