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Anjos na luta por saúde

29/10/2013

(Foto: Cezar Magalhães/Diário do Pará )

Política nacional de saúde para pessoas com deficiência está no papel há onze anos, mas cerca de 45 milhões de cidadãos dependem ainda de apoio extra frente aos gargalos do SUS

Saúde já é um problema para todos que dependem do sistema público, em qualquer lugar do país. Quando você soma a isso à necessidade de atendimento especializado, acessibilidade, desde rampas até banheiros, e ainda disponibilidade de materiais e remédios adequados, a situação é vergonhosa. Todos os deficientes que já dependeram do SUS tem uma história desagradável para contar”. A afirmação é de Lúcia Brasil, assistente social que há 22 anos atua no município de Ananindeua. 

Vivenciando diariamente as histórias de milhares de pessoas que buscam orientação para sua deficiência, ela considera a saúde um dos setores que menos avançou em todo o Brasil. “Ainda enfrentamos problemas básicos como falta de água, de instrumentos e até de médicos. Como conseguiremos ofertar sessões de fisioterapia, fonoaudiologia, acompanhar o desenvolvimento de um autista, por exemplo?”, questiona. 

Por isso, é comum Lúcia encaminhar diversos pacientes a instituições que os amparam, seja na educação, saúde ou lazer, como é o caso da APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), que surgiu em 1954, no Rio de Janeiro, e hoje atua em todo território nacional. Os desafios da saúde para pessoas com deficiência no país são o tema de mais esta matéria da segunda etapa da série especial ‘Agente do Bem’ - que a Campanha Orgulho de Ser do Pará vem veiculando no jornal DIÁRIO DO PARÁ e na RBATV. São matérias que trazem exemplos de urbanidade e ações positivas de personagens inspiradores e agentes que promovem a inclusão e acesso a direitos e à cidadania.

APOIO

Em Belém, a assistência de saúde dada pela APAE é, para muitos, a principal fonte de cuidados e bem-estar. “Cerca  de 80% dos nossos atendimentos são feitos para pessoas que vivem com até dois salários mínimos ou dependem dos benefícios sociais do governo. A nossa preocupação é inclusão plena e para isso a base saúde, educação e interrelacionamento é fundamental”, explica Luiz Augusto, médico e diretor da APAE Belém. Na associação são oferecidos serviços de fisioterapia, fonoaudiologia , psicologia, terapia ocupacional, além de atividades lúdicas e educacionais. 

“Existem deficiências que não podem aguardar meses por atendimento. Muitos pacientes precisam de medicamentos constantes. Às vezes são pessoas com deficiência intelectual, epilepsia e transtorno. A demanda é muito alta para o serviço público oferecido, por isso buscamos amenizar essas dificuldades através de nossos parceiros e voluntários. Essa é a nossa missão”, acrescenta. 

A fim de mobilizar cada vez mais voluntários e doadores, a entidade realiza eventos que levam informação e suscitam debates importantes. Em Belém, durante semana nacional da pessoa com deficiência, celebrada em agosto, foi montada uma programação especial com panfletagem, cinema, teatro e apresentações musicais. A ideia foi sensibilizar a sociedade pela luta dos direitos das pessoas com deficiência. Neste ano o tema da semana foi “Desafiando limites, diminuindo diferenças”. 

“As pessoas com deficiência são impostas por paradigmas que precisam ser derrubados. Para a inclusão à cidadania. Queremos mostrar que a potencialidade deles é igual à de qualquer pessoa. Estão aptos ao esporte, ao trabalho, educação. Pessoas saudáveis, que com os cuidados necessários, têm uma vida digna. São pessoas de sucesso”, afirma Luiz. 

Segundo o médico, um dos pontos essenciais no tratamento é valorizar a autogestão. “As pessoas sem deficiência aprendem a ser independentes de forma natural, mas quem possui alguma deficiência necessita de estímulo. Um exemplo é um programa voltado especificamente para jovens. Na última sexta-feira de cada mês a instituição promove a Balada Pop Apae. Eles pegam convites, vão com os pais até o local, mas se divertem numa sala separada, onde há música, luzes e outros adolescentes da mesma idade”, cita. 

E são justamente esses momentos de interação social que mais agradam Juliana Reis, de 17 anos. “Acho que a saúde tem muito a ver com a felicidade. Quando tudo corre bem, tenho mais força de vontade para fazer as sessões, ir às consultas. Também é melhor quando você tem amigos por perto, pessoas que torcem pela nossa evolução”, comenta. Ao lado da mãe, ela vai à APAE três vezes na semana, num atendimento multidisciplinar que visa amenizar os avanços da distrofia muscular. 

“Nos sentimos realizados no trabalho que fazemos, principalmente ao percebermos os avanços dos pacientes. Os anseios dos pais são grandes. Quando conseguimos efetivar o sonho dele, como ver o filho andar, falar, se relacionar, quando tornamos realidade, é uma grande recompensa. Essa nova expectativa, novos sonhos é uma grande luz para a família e para o indivíduo. Muda o modo de enxergar a vida”, afirma Luiz. 

POLÍTICAS PÚBLICAS 

Segundo o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 45 milhões de cidadãos - 23,9% da população do país - possuem algum tipo de deficiência. Isso significa que quase um quarto dos brasileiros deve contar com um serviço público capaz de assistir as suas diferentes necessidades, sejam elas motoras ou mentais. 

A Política Nacional de Saúde da Pessoa com Deficiência, instituída em 2002, define, como propósitos gerais: proteger a saúde da pessoa com deficiência; reabilitar sua capacidade funcional e desempenho humano; e prevenir agravos que determinem o aparecimento de deficiências, uma vez que cerca de 70% das ocorrências seriam evitáveis ou atenuáveis, com medidas apropriadas e oportunas. 

No Pará, a Secretaria de Estado de Saúde (Sespa) é a responsável em criar uma rede de cuidados especializados em reabilitação e desenvolver programas de saúde voltados para as pessoas com deficiência. Atualmente, os principais locais que oferecem esse atendimento são as Unidades de Referência Especializado do Reduto, a URE Demétrio Medrado, no bairro da Sacramenta, e a Unidade de Referência em Dermatologia Sanitária Marcelo Cândia, em Marituba, que dispõe de Sapataria Ortopédica e fornecimento de material de órtese e prótese para usuários acometidos pela hanseníase.

Para os menores, de 0 a 13 anos, existem serviços de reabilitação motora também no Hospital Bettina Ferro, na Universidade Federal do Pará, e na Unidade de Referência Especial em Reabilitação Infantil (URE-Rei), no Telégrafo. 

Todos os direitos assegurados, contudo, não são vistos no dia a dia, principalmente nos interiores e nas periferias dos centros urbanos. 

“Assim como o próprio SUS, temos uma legislação eficiente, que contempla as demandas das pessoas com deficiência, principalmente no Estatuto da Pessoa com Deficiência. O que falta é transferir para a prática, assegurar as oportunidades através de políticas públicas. Precisamos transformar a ideia em realidade”, ratifica Luiz. 

(Diário do Pará)

 

PARA TODOS 

As metas da Política Nacional de Saúde da Pessoa com Deficiência, estabelecida em 2002: 

PROTEÇÃO

- Proteger a saúde da pessoa com deficiência;

REABILITAÇÃO

- Reabilitar sua capacidade funcional e desempenho humano;

PREVENÇÃO

- Prevenir agravos que determinem o aparecimento de deficiências, uma vez que 70% dessas ocorrências seriam evitáveis ou atenuáveis com medidas apropriadas e oportunas na área de saúde.

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