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Hora de entrar em campo

03/11/2013

(Foto: Cezar Magalhães/Diário do Pará )

Eles lutam por mais respeito, acesso a opções de lazer e estão cada vez mais decididos: entrarão de vez na vida da cidade para dividir emoções.

Entregar-se a um momento de descontração. Sentir-se alegre, descansar, realizar os próprios desejos, estar feliz: derivado do latim licere, a palavra lazer significa “ser lícito”, “ser permitido”. No Brasil, o acesso ao lazer e às suas demais sensações associadas é direito constitucional de todos os cidadãos. 

Segundo a Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos das Pessoas com Deficiência, as prioridades do poder público para quase um quarto da população brasileira - a quantidade de pessoas com alguma deficiência no país -não são apenas o emprego e a saúde, mas também a possibilidade de lazer e turismo. Promover bem-estar e diversão, contudo, não é tarefa simples. É preciso envolver um conjunto de produtos e serviços adaptados, que vão desde logradouros, restaurantes, parques e centro comerciais. 

Para essa parcela da sociedade, os problemas dos espaços de recreação são os mesmos sempre citados: escadas e degraus sem rampa de acesso a cadeira de rodas, banheiros não adaptados, ausência de cardápio em braille, falta de um espaço adequado, funcionários sem capacitação para se comunicar em libras, entre outros. Nos cinemas e teatros, um movimento nacional pede o uso da audiodescrição (descrição das cenas) para que as pessoas cegas possam acompanhar um filme ou a uma peça sem dificuldade de compreensão. 

Como parte do programa de melhorias, o governo federal anunciou investimentos de R$ 84 milhões, apenas em infraestrutura para grandes eventos internacionais, como a Copa do Mundo (2014) e as Olimpíadas (2016). Mas apesar disso, nos próprios novos estádios ainda há incoerências. O Maracanã, reformado há pouco tempo, só conta com 141 lugares para pessoas com deficiência, ignorando solenemente a recomendação do Comitê Paralímpico de, pelo menos, se garantir 1% das vagas para o público formado por pessoas com deficiências.

A luta desses brasileiros por mais respeito ao seu direito à diversão e ao acesso a programações e locais públicos em busca de lazer é o tema de mais uma matéria da segunda etapa da série especial ‘Agente do Bem’ - que a campanha Orgulho de Ser do Pará vem veiculando no jornal DIÁRIO DO PARÁ e na RBATV. São 24 matérias com exemplos de urbanidade e ações positivas de personagens inspiradores e histórias e atitudes de agentes que promovem a inclusão e acesso a direitos e à cidadania.

EMOÇÃO: UNIÃO 

Apesar de tudo,  a  ausência de espaços apropriados abertos a todos no país não impede que milhares de pessoas exerçam seu direito ao lazer. Esse é o caso de Ermelino Guimarães Fonseca, 50 anos, que torce pelo Paysandu e não se intimida na hora de demonstrar a paixão pelo clube. Cego, o administrador de empresas foi a primeira vez ao estádio há mais de 20 anos, num jogo que ainda recorda perfeitamente: ABC e Paysandu. “O Paysandu conseguiu a classificação. Foi emocionante”, lembra. A felicidade da vitória se uniu à sensação de pisar na arquibancada pela primeira vez, outra boa recordação. “Foi um momento de participação. Eu me senti parte do grupo, da torcida. Gostoso é estar junto de todo mundo, gritando”, afirma. 

Para Ermelino, o entrosamento com os outros torcedores não foi difícil. “Ninguém estranhou, eu fui logo me integrando. As pessoas que vão para o estádio são mais despojadas, não têm tanta discriminação”, garante.

Com um ambiente de animação e amizades, ele vai aos jogos sempre que pode. Só ou com amigos, não importa. O que vale é presenciar a magia do futebol.  “Eu sempre encontro um pessoal lá. Já tem uma turma certa. Por isso também é melhor ir para a arquibancada, pois tem mais emoção. Fiquei uma vez na cadeira cativa, mas não gostei”, conta. 

Além de acompanhar o andamento da partida pelos comentários dos colegas, o administrador leva sempre o radinho consigo. “Me ajuda muito a entender o jogo. Às vezes passo mais informação do que quem enxerga”, afirma entre sorrisos, mas com convicção. 

Além de marcar presença nos jogos do Papão, Ermelino gosta de música e frequenta, ocasionalmente, espaços que tocam pagode. “Belém tem opções para pessoas com deficiência. O que falta é a pessoas se integrarem mais. Apesar da falta de acessibilidade, a integração é o que prejudica mais”, garante. 

A fim de estimular justamente a sociabilidade das pessoas com deficiência, entidades sociais investem em programas culturais. Em agosto, a Federação das Apaes (Associação de pais e amigos dos especiais) no Pará realizou o IV Festival Estadual Nossa Arte. Na ocasião, apresentações e exposições foram organizadas para incitar a aprendizagem dos participantes, oferecendo lazer, terapia e expressão corporal. Em cada espetáculo, a ideia era também despertar o interesse do público pelo gênero artístico. 

Segundo a organização do evento, o objetivo foi conscientizar a sociedade paraense de que as pessoas com deficiência são capazes de se expressar por meio da arte o que contribui para sua autoestima e bem-estar social. Motivo pelo qual também foi lembrada a importância da gratuidade como estímulo para as pessoas frequentarem espaços culturais.  

Apesar de suspensa por alguns meses em 2012, a legislação municipal que garantia o acesso gratuito de idosos e pessoas com deficiência a estádios, cinemas, teatros e estabelecimentos de lazer e cultura permanece válida. Em junho do último ano o desembargador Constantino Guerreiro retirou a liminar que as havia declarado inconstitucionais. A gratuidade em estabelecimentos culturais já existia e era normalmente aplicada pelos estabelecimentos desde 1993. 

“As pessoas acham que deficiente tem que ficar em casa, que é perigoso, que precisamos de cuidados excessivos. Mas se não colocarmos o lazer entre nossas prioridades, como teremos uma vida normal?”, questiona a analista de sistema Roberta Cardoso. 

Aos 28 anos, ela faz o possível para ter uma vida social compatível com as pessoas da sua idade. Ir ao cinema, shows e encontrar os amigos em bares abertos são suas opções favoritas. Com o namorado e um grupo de três amigas próximas, ela mantém o hábito de realizar encontros mensais para matar a saudade, ouvir as novidades e rir por muitas horas. 

“É uma questão de viver bem, com disposição e convívio social. Claro que trabalho e assistência médica são essenciais, assim como praticar exercícios físicos, mas o convívio nos faz sentir parte da comunidade, nos dá uma motivação a mais. Todos nós precisamos de outras pessoas, não vivemos sozinhos”, afirma.

(Diário do Pará)

 

O QUE FAZ UM AGENTE DO BEM

INTEGRE-SE

- Seja no teatro, no campo, na mesa ao lado ou nas rodas de amigos:  pessoas com deficiência têm ideias, gostos, vontades e opiniões como todos. Permita-se interagir e trocar experiências.  

PROPAGUE

- Espalhe a ideia e a defenda: todos têm direito ao acesso a opções de lazer; 

DENUNCIE

- Avise casos de desrespeito ao MP: das 8h às 13h ou pelos telefones 4008-0410 e Disque 100 (Secretaria de Direitos Humanos).

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