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Lição: que importam as diferenças?

07/11/2013

(Foto: Alzyr Quaresma/Diário do Pará )

A trajetória do doutor universitário Marcelo Zeni é uma aula de vida e já serviu de exemplo para várias centenas de estudantes: ele sempre se destacou em seus ofícios - e ser cego, ensina, foi um detalhe mais que irrelevante para tudo isso.

Quem já levantou a mão para o professor Marcelo?”, indagava uma popular comunidade na antiga rede social Orkut. O professor em questão é Marcelo Zeni, 67, doutor em história, cego de nascença. “Quando me contaram, eu dei uma gargalhada. Foi muito inteligente e tinha um bocado de gente. Muito engraçado”, conta o professor, que levou tudo na esportiva.

O gesto involuntário de levantar a mão hoje já é motivo de chacota. “Já avisam quando tem alguém com a mão levantada e eu digo logo: ‘abaixa essa mão e fala’”, conta o professor, que é doutor da Universidade do Estado do Pará (Uepa). O quadro de sala de aula quase não é usado. A fala é o principal canal de comunicação com os universitários em sala de aula. A metodologia é baseada no debate.

No começo, os alunos estranhavam o mestre cego. “Agora não tem mais espanto. Dava pra sentir a expectativa e ela não era das melhores. Eles queriam saber que tipo de professor eu seria”. O tipo pode ser classificado como rigoroso.

Há cinco anos atuando como professor na Uepa, Marcelo Zeni deixou 17 anos de carreira na Rede Ferroviária Federal, onde trabalhava na área de informática, no Rio de Janeiro. “Sempre detestei aquilo. Não aguentava mais e resolvi arriscar. Tinha 53 anos quando fui fazer doutorado”, conta.

Bolsista integral em um renomado colégio, Marcelo cursou Ciências Sociais em uma universidade estadual e Economia em uma faculdade particular. Foi trabalhar com informática por sobrevivência. Formou-se em Ciências Sociais durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici, o que não facilitou muito a vida.

“Havia receio de fazer Ciências Sociais, aliado ao fato de ser cego. Para um cego, naquela época, poder entrar em uma sala de aula... Era difícil a escola aceitar”, conta. “Mas o Médici não foi culpado de tudo”, pondera. Antes de ingressar na Rede Ferroviária Federal, trabalhou no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), também na área de informática, e fez Economia.

Para ingressar no funcionalismo público, Marcelo Zeni usou a experiência a seu favor. O edital do certame para a Rede Ferroviária não previa atendimento especial. Inscreveu-se e destacou que estava ciente das regras do edital. Em seguida, impetrou mandato de segurança que foi deferido e não foi contestado. Aprovado e classificado, trabalhou por 17 anos e deixou o órgão em demissão voluntária.

“O preconceito é diário. Só tem que saber identificar o que é viável e o que não é. Já foi pior”, compara o professor, que afirma ainda sentir descriminação. “Pra todo mundo tem. Você tá andando na rua e não tá escrito na sua testa que é doutor, mas tá escrito na testa que é cego”, assegura, ao enfatizar que o comportamento das pessoas muda quando sabem seu grau de escolaridade .

Marcelo Zeni lembra ainda que estudar hoje em dia está mais fácil. “Agora tem mais recursos. Antes eu precisava de alguém que lesse ou gravasse pra mim. Era muito diferente do que é hoje”, avalia.

UM GIGANTE ENTRE IGUAIS

Para o professor doutor, a educação ainda é um desafio no Brasil. Mas Marcelo sempre teve posições firmes a respeito da própria condição ou sobre o que quer que ela implique para seu papel social ou seu relacionamento com o mundo: recusou-se a usar o sistema de cotas no concurso público para o cargo de professor da Uepa e deixou claro que não faria uso da cegueira como critério de desempate. 

“Eu me recuso a entrar pelo sistema de cotas. Sou radicalmente contra contas, qualquer uma. A cota cria um gueto fantástico e acho que devemos lutar por igualdade de oportunidades”, pondera.

Militante, Marcelo Zeni contribuiu para a redação da Constituição de 1988. Ele ressalta: os bastidores foram muito mais interessantes do que a conclusão da Carta Magna. “Conseguimos seis questões, nem todas muito favoráveis como nós queríamos”. Uma delas é sobre a escolarização para os deficientes e a segregação. “A matrícula na escola mais próxima de casa era mais ou menos o que a gente queria e já tinha uma luta contra as escolas especiais. Não pode segregar”, frisa.

Mas Zeni também pondera que não se pode mergulhar na radicalidade nesse tema. “Não tem como alfabetizar o cego na escola normal. O tipo de escrita e leitura é diferente. O ponto de partida não pode ser igual”, defende o professor. A sua tese de mestrado foi ligada à cegueira. O professor queria agregar a militância à academia. “Demonstrei inclusão acadêmica”, ressalta.

A deficiência visual é a segunda mais comum no Estado. São 15.459 pessoas cegas. No Pará, 47. 982 pessoas têm deficiência visual, auditiva ou motora, segundo dados do censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Aos 68 anos e após décadas de bom trabalho e muitas contribuições para o País, Marcelo Zeni já quer descansar e aproveitar o aumento da expectativa de vida dos brasileiros - que em três décadas subiu de 62,5 anos para 73,7 anos. Em 2011, sete milhões de aposentados voltaram ao mercado de trabalho. O professor doutor, no entanto, nem cogita essa possibilidade: “Chega, chega. Já quero me aposentar”, sorri o mestre em tom maroto.

(Diário do Pará)

 

AGENTE DO BEM

QUEM FAZ

- O professor universitário Marcelo Zeni, 68, há anos dá a sua lição de inclusão e profissionalismo ao debater o respeito às pessoas cegas.

FAZ DIFERENÇA

- Como militante, ele atuou para a inclusão de pontos que garantissem direitos básicos em educação na Constituição de 1988.

- Na vida profissional, sempre ignorou solenemente qualquer  tipo  de vantagem derivada de sua condição quando o assunto é a carreira.

- Para ele, essa postura afirmativa é crucial para a construção do respeito e a garantia de igualdade de oportunidades a todos.

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