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Ideias a serviço da vida

09/11/2013

(Foto: Alzyr Quaresma/Diário do Pará )

De cadeiras de rodas movidas a pensamento a softwares que ajudam cegos, inovações mudam para melhor a rotina de pessoas com deficiência.

Ir para frente, para trás; para a esquerda ou direita. Os comandos são simples e levam somente um segundo para serem executados depois do treinamento do usuário: assim, pessoas com deficiência física já podem mover cadeiras de rodas apenas com a força do pensamento. É a tecnologia social.

A novidade surgiu de um trabalho de conclusão de curso (TCC) de estudantes de Ciência da Computação do Centro Universitário do Pará (Cesupa). A ideia era proporcionar acessibilidade e independência aos portadores de deficiência física. “O objetivo da tecnologia é facilitar a vida das pessoas e nós queríamos trazer a tecnologia para o cotidiano das pessoas com deficiência”, explica Felipe Cintra. Em parceria com o xará Felipe Nascimento, os então universitários desenvolveram o protótipo com a orientação do professor Eugênio Pessoa.

Essas e outras tecnologias, que já ajudam a mudar para melhor o dia a dia de pessoas com deficiência, são os temas das duas últimas matérias, publicadas hoje e amanhã, da segunda etapa da série especial ‘Agente do Bem’ - que a campanha Orgulho de Ser do Pará vem veiculando no DIÁRIO e na RBATV. A série envolveu 24 matérias com exemplos de urbanidade e ações positivas de personagens inspiradores e histórias e atitudes de agentes que promovem a inclusão e acesso a direitos e à cidadania.

ACESSÍVEL 

Já pensando nos custos de uma possível cadeira de rodas movida a pensamento, os então estudantes Felipe Cintra e Felipe Nascimento e o professor do Cesupa Eugênio Pessoa partiram do começo: não optaram por uma cadeira já motorizada. “Foi tudo do zero, pela acessibilidade de base do projeto e pela acessibilidade econômica, para ser lançada no mercado a um baixo custo”, pontua Eugênio Pessoa, engenheiro eletricista mestre em informática.

Depois de motorizar a cadeira eles mesmos, o passo seguinte foi fazer um computador inteirar com a cadeira e o aparelho que capta ondas cerebrais. Diferente dos demais, o protótipo não é invasivo: não exige uma microcirurgia  para instalação de sensores no crânio.

Como num encefalograma, o Emotive Epoc desempenha a sua função apenas se colocando aparelho na cabeça. É ele que vai identificar os comandos da mente e direcionar a cadeira de rodas no sentido apontado pelo pensamento do condutor.

O Emotive capta e repassa a outro computador os movimentos e a interpretação do usuário. É o microcomputador que ativa os motores da cadeira e gera o movimento. Para isso, é preciso a confirmação do comando. Com um piscar de olhos o usuário confirma a direção que deseja seguir. Ele tem cinco segundos para confirmar o sentido. O sistema foi batizado de Mind Control.

Para usar a tecnologia, o condutor precisa primeiramente passar por treinamento que identifica padrões de pensamento. “Pode levar 15 minutos ou uma hora. Depende do usuário”, esclarece o orientador do projeto. O capacete é ligado sem fios à cadeira – o que facilita os movimentos do cadeirante.  

Os quatro pensamentos básicos de direção são detectados e guardados como padrão. “Cada pessoa tem um pensamento diferente”, afirma Eugênio Pessoa. A concentração é fundamental para o melhor desempenho dos comandos. O projeto de TCC de Felipe Cintra e Felipe Nascimento foi entregue em 2011. Hoje, a cadeira de rodas movida pelo pensamento ainda precisa de mais ajustes. “O que a gente precisa é de mais investimento na pesquisa. O projeto está consolidado pelas condições de uso. Agora queremos criar condições de dirigibilidade para que uma pessoa tetraplégica, por exemplo, possa usar”.

O aperfeiçoamento da dirigibilidade da cadeira de rodas movida pelo pensamento desenvolverá controles para se detectar obstáculos – uma forma de evitar acidentes entre a emissão da mensagem ao Emotive, a confirmação pelo Mind Control e a execução do movimento da cadeira pelo sistema computadorizado sem fio.

Assim, o cadeirante não corre o risco de perder a concentração na emissão do comando e esbarrar em obstáculos que podem provocar quedas ou demais acidentes. Por isso dar continuidade ao projeto exige mais investimentos.

“Ninguém ainda investe em projetos como este e conseguir recursos para pesquisa nesse país é complicado. Não é um projeto que dê retorno imediato”, lamenta o orientador, justificando porque a cadeira de rodas movida pelo pensamento ainda não está disponível no mercado.

Um dos principais objetivos dos pesquisadores é proporcionar um preço acessível do mecanismo que poderá facilitar e dar independência a pessoas com deficiência física. “É um projeto que envolve a questão social além da tecnológica”, define Felipe Cintra.

Enquanto o retorno financeiro ainda não chega, através de vídeos publicados na internet Cintra tem recebido diversos e-mails e contatos interessados em saber como o sistema funciona. “Participamos de eventos e tivemos bastante visibilidade. As pessoas ficam curiosas com a operação, o estudo e a análise da ideia”.

Os pesquisadores estimam que a cadeira movida pelo pensamento poderia ser comercializada entre R$ 8 e R$ 10 mil – quase o valor de uma cadeira motorizada comum. 

“O projeto é voltado para a filantropia e a questão é social e não  mercadológica, até por que não há grande mercado para isso. Mas temos esperanças”, diz o bacharel em ciência da computação, que pretende dar sequência ao TCC nota 10 com o mestrado. 

(Diário do Pará)

 

AGENTE DO BEM

QUEM FAZ

- Felipe Cintra e Felipe Nascimento  fizeram de seu trabalho final de universidade uma oportunidade de melhorar a vida de cadeirantes.

FAZ DIFERENÇA

- Sua cadeira de rodas movida a pensamentos oferece mais a um custo menor.

- Mais que inovação e mercado, a motivação foi social.

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