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Ciência para ganhar o mundo

10/11/2013

(Foto: Divulgação )

De tablets que interagem pela linguagem braille a softwares de educação inclusiva, essas novas ideias dão asas à cidadania no país.

Portáctil. Portabilidade em mãos, tecnologia que permite um mundo de descobertas e possibilidades. Tablet, mouse braille e máscara qwerty formam o tripé que logo deve fazer a alegria de 152 crianças cegas matriculadas na rede pública municipal de Fortaleza. A prefeitura da capital do Ceará comprou 200 unidades do produto a R$ 4 mil cada.

As tecnologias que já ajudam a mudar para melhor o dia a dia de pessoas com deficiência são o tema das duas últimas matérias da segunda etapa da série especial ‘Agente do Bem’ - que a campanha Orgulho de Ser do Pará vem veiculando no DIÁRIO e na RBATV. Ontem o DIÁRIO mostrou como a inovação de uma cadeira de rodas comandada por pensamento - desenvolvida por universitários paraenses - pode transformar o cotidiano de tetraplégicos. A série, que envolveu 24 matérias, listou esses e outros exemplos de urbanidade e ações positivas de personagens inspiradores e histórias e atitudes de agentes que promovem a inclusão e acesso a direitos e à cidadania

PARA TODOS

Cogita-se que um dia e-books tomem o lugar dos livros e que jornais impressos deem vez aos jornais digitais. As mídias tradicionais correm risco de extinção. A linguagem e suas formas de transmissão evoluem em um processo natural de substituição e transformações. O Portáctil inverte esta ordem: por meio da tecnologia, tenta resgatar a linguagem braille. 

“Os cegos já utilizam computadores, smartphones e tablets na leitura de textos através do auxílio por áudio. No entanto, a praticidade de uso do áudio e a dificuldade de encontrar material impresso em braille está causando um processo gradual de esquecimento da escrita braille. E temos que lembrar que oficialmente, a acessibilidade em placas, elevadores, letreiros, cardápios, caixas de remédios etc. ainda é o braille”, avalia Anaxágoras Maia Girão, professor e pesquisador do Laboratório de Pesquisa Aplicada e Desenvolvimento em Automação, do Instituto Federal do Estado do Ceará (Lapada- IFCE). 

Seguindo esta linha de raciocínio, em dois anos o professor desenvolveu o mecanismo Portáctil. “Precisamos de mais um ano para a consolidação do produto”, destaca. Pedagogicamente, o propósito da pesquisa é medir o quanto o Portáctil auxilia no aprendizado ou no reaprendizado do braille. “Ao oferecer as duas opções de leitura, áudio e braille, queremos descobrir o verdadeiro peso do braille diante das novas tecnologias de acessibilidade”, destaca Girão. 

O projeto é complementado pelo objetivo tecnológico: desenvolver uma grande plataforma de acessibilidade para dispositivos móveis que permita ao cego ter total acesso a todas as ferramentas disponíveis para as pessoas sem deficiência, como e-mail, redes sociais e jogos.

Apesar das primeiras vendas, o pesquisador frisa que a plataforma de tecnologia assistiva, mesmo portátil, está longe de ser finalizada. O motivo? Ele almeja quebrar barreiras físicas e sociais. “Temos hoje uma ferramenta para o ensino em sala de aula. Queremos levar esta ferramenta para o dia a dia do cego. Se uma criança cega puder ter acesso a todo o conteúdo digital de um tablet no formato braille, ela vai poder frequentar uma sala de aula convencional em condições de igualdade. Isso é muito importante para a sua educação e socialização”.  

Como funciona? O texto armazenado no tablet é transmitido via bluetooth para um display braille (semelhante a um mouse). O display mostra três símbolos por vez. Quando o mouse desliza sobre uma superfície, o texto passa sob o dedo do usuário, imitando o processo de leitura de um livro braille convencional. O display é o componente que torna o produto caro e volumoso. Numa linha braille tradicional, há 80 celas.

ABC

Os livros ainda são a forma mais eficaz e de maior grau de credibilidade para o processo educacional. Com o desenvolvimento tecnológico, outras técnicas foram introduzidas à metodologia do ensino e atreladas à alfabetização. Professores ganharam reforços para ensinar os códigos de linguagem, fomentar a leitura e enriquecer o vocabulário de crianças, jovens e adultos com deficiência intelectual. 

Disponível em 650 escolas da rede pública do Distrito Federal e em todos os Estados do país, o software Participar, desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), substituiu os desenhos - utilizado pelas crianças para representar objetos –, por letras que têm grafia e som distintos. 

Adaptado para as limitações de cada usuário, o software abrange todos os níveis de escrita e todas as dificuldades. A alfabetização tradicional é somada aos recursos do Participar. Por meio de recursos multimídia, o programa apresenta as letras do alfabeto, o som de cada uma e exemplifica com objetos em que as letras são empregadas. Com os sentidos – visão e audição – somados à associação, crianças com deficiência intelectual são mergulhadas em um mundo de possibilidades. O aprendizado é quase uma consequência.

Além de contar com 600 vídeos produzidos pela televisão da universidade, a UnBTV, os alunos da alfabetização podem ainda acessar séries de exercícios apresentados por dois jovens com Síndrome de Down. 

O Participar é resultado do Trabalho de Conclusão de Curso de Tiago Galvão e Renato Domingues, alunos de Ciência da Computação. O projeto foi orientado pelo professor Wilson Veneziano. O software Participar entra no hall dos mecanismos educacionais desenvolvidos para a educação inclusiva. O objetivo é fazer com que outras vertentes sejam contempladas pelo software, que visa educar autistas pela matemática social – feita por meio de analogia com dinheiro, relógio e linhas de ônibus. Para esta fase, a dupla recebe orientação da orientadora educacional Maraísa Borges. 

INCLUSÃO

A informática inclusiva foi tema de discussão no Estado. Em maio, a Associação de e Para Cegos do Pará (Ascepa) realizou o “I Encontro Norte-Nordeste de Informática Inclusiva com o uso do Dosvox e Outros Softwares”. Em pauta, a acessibilidade do “Dosvox”, o mais difundido programa que permite o acesso das pessoas com deficiência visual ao computador, e demais ferramentas tecnológicas voltadas ao favorecimento da inclusão social, educacional, cultural e econômica dos cegos.

Pelo Dosvox, um livro didático, revista ou outro impresso qualquer, após digitalizado, torna-se acessível para pessoas com deficiência visual. O Dosvox é gratuito e pode ser instalado em todos os computadores. 

A tecnologia a cada dia possibilita avanços em diversas áreas. Entre elas, a inclusão social de pessoas com deficiência. Os militantes agora clamam por uma política de universalização no acesso das pessoas com deficiência às plataformas tecnológicas. 

Sonhos de evolução educacional e social que também passam pela cabeça de Claydiane Teixeira Madureira, 17 anos, moradoras de Icoaraci. “Comecei a usar ano passado [o Dosvox]. Já conhecia há um tempo, mas não tinha computador em casa e eu não sabia escrever no computador”, diz a estudante da sexta-série. 

O Pará tem 20% dos deficientes visuais do país. Cada vez mais versáteis, computadores são uma grande ferramenta de cidadania. O desafio agora é a universalização desses recursos - com a ajuda de agentes do bem como esses acadêmicos, que pedem um Brasil para todos.

(Diário do Pará)

 

QUEM FAZ

- Anaxágoras Maia Girão, professor e pesquisador do Laboratório de Pesquisa Aplicada e Desenvolvimento em Automação, do Instituto Federal do Estado do Ceará.

FAZ DIFERENÇA

- Desenvolveu o mecanismo Portáctil, com mouse braille e máscara qwerty em braille para que cegos possam usar tablets.

- A meta: cria uma plataforma de acessibilidade para dispositivos móveis que permita a cegos total acesso a ferramentas como e-mails, redes sociais e jogos.

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