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Saia do muro

25/05/2014

(Foto: Elcimar Neves )

A simples decisão de se procurar a maneira correta de se dar fim ao lixo pode fazer com que cada vez menos locais públicos virem lixões na Grande Belém, de calçadas a canais e até praças: você quer ajudar?

Quem não gostaria de viver numa cidade mais limpa, onde o descarte dos resíduos sólidos, ou de qualquer outro produto que em algum momento deixa de ter serventia, fosse feito de maneira correta, em locais apropriados? Muitos, certamente. Porém, o curioso é que locais públicos como canais, praças e vias públicas estão servindo cada vez mais de depósitos para a destinação de todo tipo de resíduo. E o que mais intriga é que, além do resto da cidade, o problema afeta diretamente justamente aqueles que jogam lixo onde não se deve. 

Ambientalistas e cidadãos comuns que se voltam para essa questão concordam: ela não será resolvida em um passe de mágica. Mas, com boa vontade, interesse e iniciativas pessoais, tudo pode ser menos complicado do que se imagina.

ATOS PEQUENOS  SÃO GRANDES AÇÕES

Há cerca de um ano, o estudante Walace Tarcisio Nascimento, 16, resolveu mobilizar sua vizinhança para tentar mudar a realidade da rua onde mora. “Comecei a fazer um curso profissionalizante em administração que envolve ecologia e meio ambiente, aí me apaixonei pelas áreas. Já realizamos diversas oficinas de conscientização ambiental sobre a importância de não se jogar lixo nas ruas e nos canais. Passei a viver isso”.

O perímetro onde o estudante reside, na passagem Perpétuo Socorro, no bairro de Fátima, estava sempre com muito lixo acumulado, despejado pelos próprios moradores. A repetida cena começou a incomodar o estudante, que tomou a iniciativa de tentar sensibilizar os vizinhos. “A gente sofre com alagamentos. Quando chovia o lixo ficava espalhado pela rua. Quando vejo alguém querendo jogar lixo, chamo outros moradores para a gente conversar com a pessoa, explicar o porquê ela não deve fazer isso. Hoje os próprios moradores elogiam a rua, que não está mais suja como antes”.

Mas Walace também se preocupa com bem mais que só a sua rua. Com outros colegas, também promove ações em praças da capital. “Alunos mais interessados vão para as praças recolher latinhas, garrafas pets e distribuir panfletos. Se o aluno está de recuperação, ele pode pagar o valor da prova com um certo número de latinhas. Todo material arrecadado é encaminhado para uma empresa escolhida para a fazer o trabalho de reciclagem. Faço isso pensando no futuro. Há muita falta de informação e conscientização”.

EFEITO DOMINÓ

Não importa se nos bairros centrais ou periféricos: em Belém, o lixo segue amontoado nas ruas, em canais ou nas praças e incomoda quem convive com a mazela das cidades. 

Entulhos e todo tipo de lixo ocupam parte da rua Lauro Sodré, no bairro da Terra Firme. De acordo com a vizinhança, foram os próprios moradores que começaram a fazer do local um lixão. “Um morador limpou o quintal da casa e veio jogar o lixo aí. Eu reclamei e disse que iria denunciar. Como não tem mais como despejar na Perimetral, agora vem gente de todo lugar. Isso incomoda, é feio! Se a pessoa tem um lixo em casa, liga para a prefeitura vir buscar, Depois ficam reclamando da prefeitura”, brada o auxiliar de serviços gerais Francisco Carlos Silva, 38.

No canal da travessa 3 de Maio, no bairro de Fátima, a situação não é diferente. A dona de casa Maria de Fátima Pinheiro, 47, se sente prejudicada com os entulhos jogados à beira do canal, em frente à sua residência. “É um problema constante. Meu marido fez uma cerca para ver se paravam. Entretanto vieram e quebraram. Outro dia ele foi falar e um rapaz que estava jogando lixo lá o ameaçou com uma faca. Nós moramos aqui, então temos que reclamar. Tenho crianças e aparece todo tipo de bicho. Somos prejudicados”.

Do outro lado da rua, os moradores que também residem em frente ao canal se juntaram e conseguiram alternativas: compraram lixeiras para evitar que o lixo seja deixado na rua antes da coleta da prefeitura. “O que fica nas casas é colocado nas lixeiras na hora que o caminhão de lixo vai passar”, conta o empresário Josimar Valente, 49.

COMO FAZER?

“Tem muita coisa que a gente vê como entulho que poderia ser doado. Precisamos nos perguntar, será que isso não serviria para alguém? As pessoas jogam livros no lixo que poderia ir para uma biblioteca ou para reciclagem. Medicamentos que o fabricante deveria recolher. A responsabilidade é de todo mundo”, pondera a administradora com especialização em educação ambiental Patricia Gonçalves, coordenadora da ONG Noolhar. 

Patricia garante: uma parte da população gostaria de dar uma destinação correta aos resíduos que produz. Porém não sabe como nem onde fazê-lo. “Tive uma surpresa quando liguei para o fabricante de cartuchos [de impressora]. Eles disponibilizam o recolhimento do material. O que mais ouço da maioria dos fabricantes de produtos variados é que logística no Pará é muito complicada. Antes de consumir, temos que pensar: teria onde descartar o meu novo produto? Quais as cooperativas onde posso entregar? É necessário também verificar se o fabricante tem responsabilidade com o estado. As pessoas vão se surpreender, pois a maioria das marcas responde quando você entra em contato”, garante.

Outra dica para começar: separar o lixo é mais simples que parece. “Na verdade não é nenhum sacrifício. Não precisa daquelas lixeiras de todas as cores para separar seu resíduo. Basta duas sacolas: uma para os recicláveis e outra para os não recicláveis. Os não recicláveis você descarta no carro da prefeitura. Os recicláveis você pode procurar onde descartar”, incentiva . 

A ambientalista lembra que jogar lixo em via pública ou no canal é crime. Mas ela também pondera: é dever do poder público executar um trabalho de educação ambiental contínuo e fazer a população saber sobre pontos de coleta seletiva, locais de destinação para eletrodomésticos e móveis. 

“Há um longo caminho a ser percorrido. A dona de casa fica sensibilizada e acha que pode gerar renda. Mas o carroceiro dá uma volta no quarteirão e faz o descarte em alguma parte. Eles precisam ser cadastrados e achar um local adequado para o descarte”, propõe.

(Pryscila Soares/Diário do Pará)

 

AGENTE DO BEM

OS MANDAMENTOS DE WALACE

- O estudante mobilizou a vizinhança e mudou a rua onde mora;

- Ajudou vizinhos a cuidarem do lixo que já tomava a rua;

- Faz oficinas de sobre a importância de não se jogar lixo nas ruas e nos canais;

 

CUIDE DO LIXO E MUDE SUA CIDADE

Incentivar o maior número de pessoas a debater novas ideias e a se envolver em ações, posturas, comportamentos e atitudes que ajudem a construir cidades melhores - combatendo problemas que estão ao alcance de todos, para além da intervenção do poder público - é o objetivo da campanha Agente do Bem. Engaje-se.

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