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Lugar de lixo

29/05/2014

(Foto: Ricardo Amanajás )

Do papel de bala ao entulho de feiras nas ruas, Belém sofre com um descuido crônico que a tornou uma grande lixeira a céu aberto. Mas não se engane: assim como você, muitos pensam e querem cidades melhores - e a receita é mudar a forma como encaramos o lixo

Para muitos, arremessar uma embalagem de bombom ao chão é algo tão comum que chega a ser encarado como um ato inofensivo. Mas a questão é que esse tipo de atitude se repete a todo momento e em qualquer lugar. Uma simples volta pelas ruas e praças de Belém e sua Região Metropolitana é o suficiente para tornar perceptível a dimensão do problema. A pergunta é: por que diversos pontos da capital se transformaram em verdadeiros lixões a céu aberto?

Há muito tempo já se sabe que o despejo inadequado do lixo pode acarretar sérios prejuízos ao homem e ao meio ambiente. Mas, apesar do dito popular - “lugar de lixo é no lixo!” -, nenhum desses riscos está sendo levado em consideração pela maioria da população, que insiste em depositar quase tudo onde não deve. Quem nunca presenciou cenas inusitadas, como alguém jogando um coco da janela de um coletivo para a rua ou um condutor arremessando uma garrafinha de dentro de um veículo em movimento?

Assim é a qualquer hora do dia na esquina da feira da 25 de Setembro, onde os feirantes e moradores depositam todo tipo de lixo. Funcionário de um açougue, Renato Andrade foi flagrado jogando restos de carne no local. “Todo mundo jogava o lixo dentro de dois contêineres que tinham aí. Mas acho que quebraram e tiraram de lá. E é o lugar onde o caminhão vem buscar o lixo. Não me sinto bem fazendo isso, mas não tem outro jeito”, justifica.

É a mesma desculpa do feirante Jhonata Silva. Sua ‘contribuição’ é o lixo produzido em uma barraca de verduras da feira. “As pessoas ficam olhando para a gente... Sei que é errado, mas é o único jeito. Não há onde colocar o lixo”, alega.

Na avenida Pedro Álvares Cabral, próximo à feira do bairro do Barreiro, moradores e feirantes formaram um pequeno lixão na esquina com a avenida Barão do Triunfo. Lá se despejam restos de alimentos, frutas e verduras. “A prefeitura [de Belém] recolhe o lixo, por isso jogamos aí”, resumiu um ambulante que trabalha próximo dali e não quis ser identificado.

REPENSAR O LIXO

O que parece normal para muitos incomoda a graduanda em direito Tainara Garcia Miranda, 21. A universitária é diretora-executiva do projeto ambiental Eco Vita, formado por 15 alunos do curso de direito do Cesupa. Orientado pelos professores Fransuzi Oliveira, Rafael Boulhosa e Claudia Miranda, especialista em manejo ambiental e mestre em ciências florestais, o projeto surgiu em novembro do ano passado e atende comunidades ribeirinhas do município de Barcarena que ainda não foram beneficiadas com a coleta de lixo.

Os resíduos produzidos por essas comunidades de Barcarena eram jogados nos rios ou então queimados. Hoje, todos os integrantes que compõem o Eco Vita fazem parte de outro projeto, chamado “Ilhas Legais”, que há quatro anos presta atendimento jurídico e de conscientização ambiental aos ribeirinhos de Bom Jardim e Tracuateua. 

“Estávamos trabalhando na busca de direitos fundamentais para essas comunidades quando percebemos que eles tinham um grave problema de despejo inadequado do lixo. Pesquisamos alternativas para o despejo correto e vimos que a melhor solução era a reutilização do lixo. Além de dar a destinação correta, é uma forma de gerar renda para as comunidades”, explica Tainara.

O projeto é dividido em três etapas e dura cerca de um ano, com custo estimado em R$ 7.800. A primeira é a educação ambiental. Ribeirinhos aprendem o que é o lixo e por que os resíduos necessitam de despejos adequados, como isso é feito e do que se trata a coleta seletiva. A segunda etapa é de capacitação, em parceira com a fundação Curro Velho. Artesãos ensinam aos moradores como produzir artefatos do lixo.

A terceira e última etapa do projeto é a produção e comercialização dos produtos confeccionados pelas comunidades. Plástico, metal e vidro são transformados em peças para venda em duas linhas de produção: a Eco Home (utensílios domésticos, como poltronas) e o Eco Office (utensílios para escritório, como porta-canetas).

EXEMPLO

“Estamos na primeira etapa do projeto nas comunidades Bom Jardim e Tracuateua, com 120 famílias”, anima-se a universitária Tainara Miranda. O projeto está dando tão certo que ganhou uma proporção e visibilidade além da expectativa dos seus organizadores. O Eco Vita é o único projeto brasileiro a concorrer ao TIC Américas 2014 – Competição de Talento e Inovação das Américas, programa desenvolvido pelo YABT (Young America Business Trust) e organizado pela OEA (Organização dos Estados Americanos) e Pepsico. 

A competição internacional apoia jovens empreendedores em promover ideias inovadoras e implementação de novos modelos de negócios sustentáveis. O projeto paraense foi escolhido entre cerca de 200 projetos inscritos em seletiva em todo o país . “Estamos concorrendo na categoria Eco-Challenge. Criamos um Plano de Negócios que compreende a visibilidade de mercado e financeira e o cronograma do nosso trabalho, com foco na sustentabilidade. A competição será nos dias 1 e 2 de junho, em Assunção, no Paraguai. Lá vamos conhecer empresários do mundo inteiro e teremos um encontro com o ministro de comércio exterior de Israel, com o representante da OEA e vários empresários do ramo de meio ambiente. O projeto campeão ganhará o prêmio de U$ 5 mil para investimentos em ações”, lembra Tainara.

Uma comissão de dez membros do Eco Vita viajará ao Paraguai: além de Tainara, estarão lá os universitários Renata Sampaio, Daniel Faraco, Gabriel Creão, Gabrielle Edwards, Thayoná Miranda, Michelly Reis, Paulo Monteiro, Giuliana Pinheiro e Melissa Kimura, além dos professores Fransuzi Oliveira, Rafael Boulhosa e Claudia Miranda. É a oportunidade de mostrar que com bom senso e um pouco de compromisso o paraense pode, sim, virar o jogo contra o lixo.

(Pryscila Soares/Diário do Pará)

 

AGENTE DO BEM

OS MANDAMENTOS DE TAINARA

- A estudante de direito viu no desafio do lixo um nó que implica também na construção de direitos básicos de ribeirinhos;

- Integrante de um projeto adadêmico, busca alternativas ao descarte do lixo em rios que gerem renda a comunidades.

 

CUIDE DO LIXO E MUDE SUA CIDADE

Incentivar o maior número de pessoas a debater novas ideias e a se envolver em ações, posturas, comportamentos e atitudes que ajudem a construir cidades melhores - combatendo problemas que estão ao alcance de todos, para além da intervenção do poder público - é o objetivo da campanha Agente do Bem. Engaje-se.

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