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E se Belém não tivesse lixeiras?

01/06/2014

(Foto: Jader Paes )

Com a população 14 vezes e meia menor que a de Tóquio, Belém produz cinco vezes mais lixo sem tratamento que a capital japonesa. São duas visões opostas do problema: eles não têm lixeiras nas ruas

Ao andar pelos corredores da cidade de Belém, a quantidade de lixo em vias públicas chama a atenção. Pode ser em um bairro periférico ou mesmo no centro da cidade. Pode variar de um pequeno folheto a uma esquina tomada por lixo. O fato é que a sujeira é visível e incomoda. A primeira desculpa que se imagina para explicar esse caos é a falta de lixeiras pela cidade. “Quando você passeia na praça da República aos domingos, tem um corredor inteiro de vendedores de comida, mas não há lixeiras condizentes com a quantidade de lixo produzido. As poucas que ainda encontramos são tão pequenas que não cabe sequer os cocos que são vendidos na praça”, questiona o professor Tiago Pinheiro, 35. Realmente a cidade tem uma disposição desproporcional de lixeiras em suas vias, mas será que é impossível manter as ruas limpas sem o auxílio desse instrumento? Pode uma cidade grande manter as ruas limpas sem lixeiras? Sim, é possível.

Do outro lado do mundo, a capital japonesa Tóquio é um exemplo extremo de cidade que lida bem com a limpeza urbana. Com uma zona metropolitana com 35 milhões de habitantes, uma densidade populacional que é o dobro da de São Paulo e um dos maiores mercados consumidores do mundo, a cidade surpreendentemente produz a cada dia três vezes menos lixo para seus aterros sanitários que Belém. Como se isso não fosse o bastante, também mantém suas ruas limpas e arrumadas, mesmo sem lixeiras e sem garis. Como isso é possível?

Em 1997, um atentado terrorista com gás Sarin no metrô da capital japonesa deixou 13 mortos. As bombas foram instaladas nas lixeiras. O governo japonês resolveu, como medida extrema, extingui-las e passou a cobrar mais responsabilidade de cada morador com o destino do lixo que ele produzia. “A cultura japonesa é muito diferente da brasileira. A implantação lá dessa política não teve tanto impacto porque veio ao encontro de algo que as pessoas aprendem em casa e nas ruas: não se deve sujar o espaço de todos. Essa mentalidade de ‘vou sujar para garantir o emprego do gari’, que algumas pessoas usam aqui, não tem espaço lá”, defende Maria de Valdívida Gomes Norat, professora dos cursos de Engenharia Sanitária e Arquitetura da Universidade Federal do Pará (UFPA). Tóquio também é uma das cidades com melhor plano de reciclagem e reaproveitamento de resíduos, com uma política cuja implantação tinha algumas décadas e total aceitação da sociedade, fator que ajudou a extinção das lixeiras.

Maria Norat defende que é necessário mudar a situação da sujeira nas ruas de Belém, mas acha que a discussão vai além de adotar ou não o modelo japonês. “Tóquio talvez seja a única cidade no mundo que aboliu as lixeiras das vias públicas, mas há várias formas de lidar com o lixo. Barcelona, por exemplo, tem lixeiras, mas não tem coleta nas ruas. Possui centros de coletas localizados. Ainda assim, é bem limpa”, aponta. Mas a sanitarista é enfática em destacar que o esforço de mudar a realidade das ruas é conjunto do poder público e da população. “Investimentos em educação, infraestrutura e informação devem estar aliados a mudanças no comportamento da sociedade e fiscalização da própria sociedade, do seu comportamento”.

OUTRO MUNDO

Natural de Tomé-Açu, Rosa Kamada teve a experiência de viver no Japão enquanto desenvolvia seu mestrado em Engenharia Ambiental. Atualmente trabalhando no Consulado Japonês em Belém, ela relembra que a relação da população com o lixo era bem diferente da que temos na capital paraense. “Morei em Osaka, que é a segunda cidade mais populosa do Japão. Lá, ao contrário de Tóquio, não houve a proibição das lixeiras, mas elas são bem pouco usadas porque o lixo todo costuma ser separado para reciclagem e as pessoas realmente não produzem quase lixo quando estão nas ruas. Durante o ano em que morei lá, não me lembro de ter visto um gari que fosse trabalhando na rua”.

Manter as ruas limpas é uma tarefa de todos e exige mudança de alguns hábitos. Moradora do Japão entre 1999 e 2000 e visitante do país a partir de 2002, Rosa trouxe alguns desses hábitos com ela de volta ao Pará. “Procuro não comer andando e, além disso, comecei a ser mais vigilante com a quantidade de comida que eu comprava. Comprar demais gera desperdícios e esse desperdício vira lixo depois”, ressalta Rosa.

Outro costume é separar o lixo para coleta. No Japão, há mais de dez categorias diferentes de lixo para coleta, mas Rosa procura filtrar pelo menos o básico para os catadores do Pará. “Separo o plástico, papel e metal, que é o mais comum na coleta seletiva. Também procuro não manter utensílios doméstico sem uso. Sempre que algo fica sobrando sem utilidade, procuro alguma entidade para fazer doação”, enumera.

Como se pode ver, cuidar do lixo não é coisa de outro mundo. E Belém e outras cidades do Pará têm uma vantagem: embora urgente, o nó da questão ainda é pequeno para se dizer insolúvel - e ainda há tempo para mudar o futuro.

(Taion Almeida/Diário do Pará)

 

AGENTE DO BEM

OS MANDAMENTOS DE ROSA KAMADA

- A engenheira fica alerta à quantidade de comida que compra. Comprar demais gera desperdício, que vira lixo”.

- Em casa, separa o básico para os catadores: plástico, vidro, papel e metal. 

- Sempre doa utensílios sem uso a entidades.

 

CUIDE DO LIXO E MUDE SUA CIDADE

Incentivar o maior número de pessoas a debater novas ideias e a se envolver em ações, posturas, comportamentos e atitudes que ajudem a construir cidades melhores -combatendo problemas que estão ao alcance de todos, para além da intervenção do poder público - é o objetivo da campanha Agente do Bem. Engaje-se.

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