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O lixo que se volta contra você

05/06/2014

(Foto: Ney Marcondes )

Existe um motivo forte para que comecemos a dar a devida atenção ao tratamento adequado de resíduos: você não percebe, mas o detrito que você ignora se tornará logo uma ameaça à sua segurança 

Renato Russo, vocalista e principal letrista da banda Legião Urbana, cantava em “Boomerang Blues”: “Tudo o que você fez um dia volta pra você, e se você fizer o mal um dia com o mal vai ter de viver”. O músico expressava uma lei de causa e efeito que, embora seja mais discutida pelo viés espiritual, é facilmente observável cotidianamente nas ruas.

O ser humano, como único ser vivo produtor de lixo, atinge a natureza quando espalha seus resíduos não tratados pelo ambiente. A natureza, agredida pela poluição, por sua vez ‘responde’ com reações adversas. E nessas reações o homem recebe a resposta por aquilo que faz ao ambiente: o papel jogado na rua, as garrafas plásticas e os sacos de lixo ajudam a tapar bueiros e, num dia de chuva intensa, alagam ruas e bairros.

O terreno baldio, usado para despejo irregular de lixo, atrai ratos e outras pragas, que, por sua vez passam a contaminar a população ao redor com doenças. E quando os “lixões clandestinos” se encontrarem próximos de aeroportos, as populações de urubus e outras aves que se alimentam dos dejetos passam a ser uma ameaça à aviação – com riscos que vão de cancelamento de voos até acidentes com aviões.

A lição é simples: se não tomarmos cuidado, o lixo que ignoramos uma hora volta para nos punir.

NOVELO

Para o ambientalista Heron Martins, pesquisador e funcionário do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), a raiz do problema é um misto de questão estrutural e cultural. “As pessoas que formam os lixões clandestinos, por exemplo, o fazem porque não recebem a alternativa de coleta de lixo. Às vezes são bairros onde o atendimento não chega, e elas querem se livrar do lixo e aí vem o problema cultural: não há uma consciência sobre o tratamento do lixo”, avalia. 

“Quando uma pessoa paga um carroceiro para se livrar de um entulho, ela está pagando para ele jogar fora aquele material, mas não há orientação nenhuma sobre como se desfazer dele. Ainda existe a cultura que se despejar coisas no rio. Então, esse acaba sendo o destino do entulho, que depois compromete a vazão do canal e propicia as inundações”.

Heron defende investimentos em saneamento básico e educação como uma necessidade para uma redução nessa reação adversa da natureza à ação do homem, mas afirma enxergar com preocupação o desperdício da falta da cadeia completa de reciclagem no estado. “Reciclamos quase 100% do alumínio produzido, mas praticamente ignoramos outras matérias-primas de alto aproveitamento. A borracha tem alto aproveitamento, pneus velhos podem ser utilizados inclusive na produção de asfalto – que ganha mais qualidade com o acréscimo do material dos pneus. Os pneus velhos poderiam estar ajudando a gerar soluções de saneamento, mas por falta de aproveitamento acabam se tornando problema ao serem jogados nos rios”, lamenta o pesquisador.

O LIXO TRANSFORMA

Como comentou o professor Heron, a cadeia produtiva da reciclagem pode transformar a produção de resíduos em bens aproveitáveis e soluções. Aplicada a uma comunidade com pouco acesso a saneamento básico e infraestrutura, como acesso a luz e telefonia, a cadeia, se organizada, poderia melhorar o poder aquisitivo da comunidade e o padrão de vida da população. Facilitar essa organização, através de educação ambiental e oficinas é a missão do Centro de Estudos e Logística do Meio-ambiente Aplicada (Cealma), empresa da qual a arte-educadora Renata Maués é uma das fundadoras.

O Cealma atualmente desenvolve um trabalho na ilha de Paquetá, distante 40 minutos do porto de Icoaraci. Apesar da distância relativamente pequena, a ilha não dispõe de serviço de transporte público, coleta de esgoto nem luz elétrica. Apesar de os moradores viverem rodeados por água, precisam comprar água nas ilhas vizinhas. 

“Estamos desenvolvendo um estudo sobre a produção desenvolvida na ilha e a relação dos moradores com o resíduo produzido. Nossa meta é construir, dentro da realidade deles, um projeto de beneficiamento da matéria-prima descartada atualmente e uma cooperativa para gerenciar os negócios. Afinal o foco é que a cadeia produtiva seja sustentável, e para isso é preciso pensar na organização dos moradores” explica Renata.

Nascida em Belém, Renata viveu 14 anos no Rio de Janeiro, onde iniciou seus trabalhos com educação ambiental nas comunidades de Jacarepaguá. 

A volta para Belém, em 2013, veio de um anseio por trazer contribuições para sua terra natal. A opção por trabalhar com as comunidades ribeirinhas, afastadas do centro da cidade se deu justamente pela falta de olhar para essas regiões. “A carência é maior, e as oportunidades mais restritas. Então é um palco perfeito para começar uma transformação”, explica a arte-educadora.

Ela defende um olhar patrimonial sobre a natureza. “Ela é o patrimônio imaterial da humanidade. É como a nossa casa. Se jogarmos o lixo nela, onde quer que seja, estaremos sujando nossa própria casa e complicando nossa vida”, afirma.

(Taion Almeida/Diário do Pará)

 

AGENTE DO BEM

OS MANDAMENTOS DE RENATA MAUÉS

- A arte-educadora se engajou pela educação ambiental na Ilha de Paquetá, a 40 minutos de Icoaraci;

- A ideia é repensar o lixo e usá-lo para gerar renda;

- Para ela, a natureza é um patrimônio. Abandonar o lixo é como sujar a própria casa. 

CUIDE DO LIXO E MUDE SUA CIDADE

Incentivar o maior número de pessoas a debater novas ideias e a se envolver em ações, posturas, comportamentos e atitudes que ajudem a construir cidades melhores - combatendo problemas que estão ao alcance de todos, para além da intervenção do poder público - é o objetivo da campanha Agente do Bem. Engaje-se.

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