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Tecnologia no lixo

15/06/2014

(Foto: Daniel Pinto )

Nossas vidas estão cada vez mais cercadas pelos aparelhos eletrônicos: a velocidade com que os descartamos e a maneira como fazemos isso é hoje um dos maiores desafios e riscos às grandes cidades

Quando a sociedade começou a produzir materiais eletrônicos com complexos equipamentos químicos envolvidos, a questão do lixo ganhou um problema em especial. A solução para outras categorias não servem para este tipo especial de detritos, e os riscos para o ambiente são ainda maiores.

Um velho monitor de tubo para computadores, quando abandonado na natureza, leva 300 anos para se decompor e essa decomposição fere o ambiente, pois o inunda de componentes químicos.

Se enterrado, o monitor pode contaminar os solos e o vazamento de componentes químicos pode chegar aos lençóis freáticos. Se um monitor é incinerado, o ar carrega as substâncias tóxicas oriundas da queima e o risco de pessoas inalarem e adoecerem é grande. Com o lixo eletrônico os cuidados devem ser redobrados - mas, apesar de todo esse trabalho, ele também esconde um grande potencial se bem aproveitado.

Considerando os riscos que envolvem a gestão do lixo eletrônico, também conhecido como e-lixo, a primeira pergunta que se vem à cabeça é: qual a situação de Belém? A resposta, infelizmente, é bastante preocupante. Não há ainda um programa de coleta especifica do lixo tecnológico e muitas vezes o destino é o lixão,comum em meio aos outros resíduos, para o risco dos catadores. “É um problema que só tende a crescer pois, pela lógica industrial da obsolescência programada, cada vez mais se colocarão no mercado produtos tecnológicos diferentes, competindo entre si, e com vida útil menor, para sua reposição rápida e novas vendas. É uma questão que precisa de políticas públicas específicas”, avalia a dupla de gestoras de Tecnologia de Informação Nalzeli Alves Pereira e Raquel Santos Pereira. A falta de coleta seletiva e tratamento desses produtos é visto como um problema pelo crescimento de Belém e do seu poder de consumo nas últimas décadas. “Quanto mais a população consome, mais ela descarta”.

EM TODO LUGAR

O professor de Química da Universidade Federal do Pará, José Pio de Souza, adverte que a questão do lixo eletrônico vai além dos computadores, celulares e produtos grandes de informática. As próprias lâmpadas queimadas, pilhas descarregadas e baterias abandonadas possuem uma carga grande de produtos químicos cujo descarte incorreto pode contaminar a natureza. “Entre os componentes mais perigosos estão o chumbo, o cádmio e o mercúrio. Em meio a uma montanha de lixo, num lixão, esses pequenos objetos se perdem e quando as substâncias vazam contaminam todo o ambiente. Ficam expostos os catadores e o próprio material coletado para reciclagem, assim como há risco de contaminar os lençóis freáticos”, alerta Pio.

Embora a possibilidade de se organizar uma coleta seletiva para lixo eletrônico tenha sido ventilada, e a própria Política Nacional de Resíduos Sólidos preveja essa criação, as principais iniciativas até o momento em Belém são de entidades privadas. A ONG Noolhar recebe doação de lixo eletrônico, que passa por processos de revenda – para empresas de reciclagem no sul do país – ou reaproveitamento. “Quando manipulado da maneira correta, o lixo eletrônico pode ser convertido em arte. Produzimos uma pequena escultura sobre a Virgem de Nazaré utilizando peças de um computador velho e de um teclado abandonado de computador”, conta Patrícia Gonçalves, diretora da ONG.

Já a sociedade República de Emaús recebe peças e computadores abandonados com fins educacionais. No seu Centro de Recondicionamento de Computadores essas peças e velhas máquinas se tornam utilizáveis novamente e servem para projetos de inclusão digital e capacitação em informática de jovens inscritos nos projetos da República. Assim, para o bom cidadão, a doação é um bom primeiro passo para o enfrentamento desse problema.

SÓ O NECESSÁRIO

Mas uma outra saída, aplicável a todas as formas de resíduos sólidos, também pode ser pensada como forma de enfrentar a questão: a redução. Consumindo menos e descartando menos, você produz menos lixo eletrônico. Esse é o pensamento do professor de Língua Portuguesa Jordão Nunes. “A tecnologia está aí para nos dar conforto e facilitar a vida. Mas se a gente acumular coisas demais, acaba ela mesmo virando um problema. Não é tão comum a gente encontrar produtos feitos para durar, mas procuramos por eles para equipar a casa. Nosso computador tem quase oito anos de idade. Até agora não vi necessidade de comprar um novo”. O professor, que diz que por não ver necessidade até hoje não comprou um tablet ou um celular com tela de toque. “O velho pé-duro dá conta”, brinca.

Jordão diz que começou a se preocupar com o lixo eletrônico há alguns anos, quando leu a respeito dos riscos de contaminação por vazamento de pilhas lâmpadas quebradas. “Esses produtos estão em todo lugar. Hoje eu prefiro aparelhos com bateria interna e pilhas, e troquei as lâmpadas da casa por lâmpadas fluorecentes, que têm vida mais longa”.

Os aparelhos que vêm a dar defeito, ou perdem uso, não costumam ficar muito tempo entulhando a casa de Jordão. 

“Com a internet a gente acaba encontrando um destino para as coisas. Às vezes alguém quer comprar aquela calculadora que você não vai usar mais, ou você fica sabendo de alguém que recebe televisões velhas para reciclar. Nem sempre você ganha muito e as vezes até gasta um pouco com o transporte, mas a consciência fica tranquila e pra mim isso é o que vale mais”, sorri o professor.

(Taion Almeida/Diário do Pará)

 

 

AGENTE DO BEM

OS MANDAMENTOS DE JORDÃO NUNES 

- O professor sempre procura produtos feitos para durar ao equipar a casa;

- Prefere aparelhos com bateria interna e pilhas;

- Trocou as lâmpadas da casa por fluorecentes.

 

CUIDE DO LIXO E MUDE SUA CIDADE

Incentivar o maior número de pessoas a debater novas ideias e a se envolver em ações, posturas, comportamentos e atitudes que ajudem a construir cidades melhores - combatendo problemas que estão ao alcance de todos, para além da intervenção do poder público - é o objetivo da campanha Agente do Bem. Engaje-se.

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