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O que a terra não há de comer

27/06/2014

Sopa de talo? Suco de casca de fruta? Farinha de semente? Pode soar estranho, mas essas receitas existem e são gostosas e saudáveis. Veja porque não atentar aos alimentos que jogamos no lixo é desperdiçar um tesouro e atentar contra sua saúde.

O desperdício de alimentos é um dos fatores que contribuem para a fome no Brasil. Mas o problema não é só esse: quando o lixo orgânico - aquele que tem origem vegetal ou animal e é composto de restos dos alimentos - é depositado de forma inadequada, pode também deteriorar solos e águas e até facilitar a incidência de doenças.

Nas feiras livres como o mercado do Ver-o-Peso ou na Ceasa, depois do horário de maior movimento, os restos de alimentos que tomam camburões, corredores ou calçadas são o maior indicador de como o país ainda encara de maneira simplória esse problema.

Segundo a Prefeitura de Belém, todos os dias são recolhidos cerca de 16 toneladas de lixo na capital. E a maior parte desse descarte é composta por frutas, verduras e outros produtos de origem vegetal e animal - que poderiam compor a dieta de pessoas carentes se tivessem uma atenção maior ou cuidados para o seu aproveitamento mais integral. São um tesouro que vai direto para o lixo nas feiras e nas casas de muitos paraenses.

As cascas, talos, sementes e folhas dos vegetais e frutas levam a pensar imediatamente em lixo. Mas tudo isso pode ser ingrediente para uma alimentação saudável. Muitas entidades hoje lutam para evitar o desperdício de alimentos. Elas lutam para reeducar muitos lares brasileiros para o reaproveitamento integral de frutas e verduras. Com um pouco de criatividade, o que antes tinha como destino o lixo pode passar a ser a refeição principal de muitas famílias. 

EDUCAÇÃOSUSTENTÁVEL

Aproveitar ao máximo os alimentos é cada vez mais importante em um mundo onde 1,3 bilhão de toneladas de alimentos é desperdiçado anualmente de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.

“A população desperdiça toneladas de alimentos diariamente por falta de orientação ou do mau hábito. A média é de 80% de desperdício dos alimentos por casa”. É o que diz Helena Quadros, pedagoga do Serviço de Educação do Museu Paraense Emílio Goeldi e responsável pelo projeto Alimentação Sustentável, 

O projeto Alimentação Saudável tem como objetivo trabalhar na comunidade da Terra Firme o combate à desnutrição e a fome. “Através do processo de multimistura, que é a utilização do uso de concentrados de minerais e vitaminas [farelos, pó de folhas, pó de sementes, pó de casca de ovo] em doses mínimas, mas constantemente acrescidos à nossa alimentação tradicional, fornecemos nutrientes que são indispensáveis para promover o crescimento, aumentar a resistência às infecções, prevenir e curar a anemia nutricional e manter a saúde”, explica Helena.

Sopa de talo? Suco de casca de fruta? Farinha de semente? Pode parecer estranho, mas essas receitas existem e são gostosas e saudáveis. Além disso, em épocas como a atual, em que os gastos com a alimentação estão altos, o reaproveitamento influencia diretamente na economia do lar. 

“O que geralmente vai para o lixo, como o talo, a semente e as cascas de frutas e vegetais, podem e devem ser aproveitados. Mas não somente por conta da riqueza em vitaminas e fibras, que podem ter até 40 vezes mais nutrientes do que a própria fruta, verdura ou legume, mas para evitar a obesidade e a anemia, que são as principais doenças que atingem pessoas menos favorecidas”, ressalta a pedagoga.

A taioba é um dos alimentos mais importantes nesse contexto embora bastante rejeitado e desconhecido, pela falta de informação. A coordenadora do projeto do Museu Emílio Goeldi alerta: é um mito dizer que o vegetal faz mal à saúde, informação errônea esta que faz com que ele seja frequentemente descartado. Se a taioba for corretamente utilizada, pode evitar vários problemas de saúde, pois é riquíssimo em vitamina C. “A taioba nunca deve ser consumida crua, já que possui um ácido de cálcio que é capaz de causar irritações. Mas é uma verdura que contém fibras que combatem a prisão de ventre. Apesar disso, seu cozimento não prejudica a oferta de minerais importantes que o alimento oferece”, garante Helena Quadros.

Além da taioba, há outros alimentos que deveriam ser mais usados antes de serem descartados: a castanha do Pará, a macaxeira e as cascas da banana e do ovo. “Há varias receitas. Pode-se bater a casca da banana no liquidificador e lavar com limão. Fica parecendo um bife. E é uma delícia, além de saudável”, revela a pedagoga.

Para não poluir os centros urbanos com restos que poderiam estar ajudando a população, Helena acredita que é preciso mudar a educação dentro de casa: oferecer orientação aos jovens e crianças pode garantir alimentação mais saudável. “É preciso abolir enlatados e caixas, dar ênfase em frutas e verduras e separar o lixo na residência, além de facilitar o trabalho de pessoas que fazem esse tipo de coleta”, alerta.

SEPARAR É PRECISO

Na capital paraense, o lixo poderia ter um destino mais rentável e ecologicamente correto se algum cuidado mínimo fosse dado à separação dos restos na casa de cada um: de um lado deveria estar o lixo orgânico. De outro, os descartes inorgânicos, como papel, plástico, metal, vidro, isopor e outros. 

Todos os dias, o lixão do Aurá recebe toneladas de lixo, e grande parte desse é orgânico. Isso dificulta o trabalho dos catadores, atesta a presidente da Associação dos Catadores de Lixo do Aurá, Ana Moraes. “É muito resto de alimentos que chega, um material que poderia ser reaproveitado. Isso não apenas dificulta a coleta seletiva, mas também acarreta sérios problemas de saúde, como doenças de pele”, afirma.

O lixo orgânico precisa ser tratado com todo cuidado. Além do mau cheiro, os restos de comida e de outros materiais podem gerar consequências indesejadas para os seres humanos. A propagação de bactérias e fungos, a contaminação do solo e da água e o aparecimento de ratos e insetos podem levar a várias doenças.

Ana Moraes alerta: os catadores incentivam a coleta seletiva, mas o reaproveitamento dos alimentos se torna impossível quando o problema já chega ao Aurá. “É importante que a população também contribua com o nosso trabalho. No momento nossos catadores trabalham com todo o tipo de lixo e isso acaba sendo muito prejudicial à saúde deles”, ressalta a presidente da associação dos catadores do Aurá.

O que muita gente não sabe é que este tipo de lixo também pode ser usado para a produção de energia a biogás. O seu processo de decomposição gera gás metano. Outra utilidade do lixo orgânico é a produção de adubo, que é bastante utilizado na agricultura.

REAPROVEITANDO OS ALIMENTOS

Para Ligiane Loureiro, nutricionista e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), uma atitude inteligente é aproveitar em casa as sobras e aparas, desde que mantidas em condições seguras até o preparo. “Geralmente, as cascas, talos e sementes de vegetais, que são frutas e hortaliças, são os mais desperdiçados. Eles em sua maioria são fontes de fibras que melhoram do trânsito intestinal, auxiliam na redução dos níveis de glicose e colesterol e aumentam a saciedade e a biodisponibilidade de nutrientes importantes para saúde, além de oferecer benefícios como vitaminas e minerais que participam como reguladores de nosso metabolismo e reduzem o risco de doenças”.

O desperdício é uma realidade não só de nosso Estado, mas de todo o país. É um sério problema a ser combatido pela população e pelo poder público. “Trata-se de um desafio a todos nós! Falta uma cultura e até uma educação que oriente e instrua melhor a todos para o melhor aproveitamento dos alimentos. E precisamos disponibilizar meios para que isso possa acontecer principalmente em escala industrial, onde os índices de desperdício são maiores”, afirma a nutricionista. “Podemos e devemos começar a fazer a nossa parte já em nossas casas, ambientes de trabalho e outros locais que frequentemos. São atitudes simples de comportamento que demonstrem higiene pessoal e ambiental. Se cada um fizer a sua parte, já será o começo da mudança”.

(Bruna Brabo/Diário do Pará)

 

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