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Belém cercada pelo vilão

28/06/2014

O chorume, o extrato mais perigoso resultante da decomposição do lixo das cidades, será um dos nossos principais desafios ambientais mesmo após o fechamento do lixão do Aurá. Mas problema não é só lá e todos temos culpa: os inimigos somos nós

É provável que boa parte da população desconheça o que vem a ser o chamado chorume e, principalmente, a ameaça que o líquido percolado, como também é conhecido, pode oferecer à fauna, à flora e aos seres humanos. Chorume é basicamente o resultado da decomposição do lixo. Trata-se de um líquido de coloração escura, que apresenta um odor desagradável e é altamente poluidor: contém elevadas concentrações de compostos orgânicos e inorgânicos, como o cloreto de sódio, além de metais pesados extremamente tóxicos, sólidos suspensos e compostos orgânicos originados da degradação de substâncias que são metabolizadas, como carboidratos, proteínas e gorduras.

O chorume é facilmente encontrado em áreas onde são despejados ou dispostos os resíduos sólidos, como locais públicos ou lixões, aterros controlados e aterros sanitários. A sua composição físico-química é extremamente variável, visto que depende de fatores que vão desde a idade do lixão ou aterro, às condições pluviométricas e temperatura do local, além do tempo de disposição e da composição do próprio lixo recebido. 

O mecanismo é simples: o lixo passa por processos físicos, químicos e biológicos de decomposição por bactérias. Quando a água, principalmente das chuvas, encharca desses resíduos, várias dessas substâncias orgânicas e inorgânicas são carreadas, formando o chorume. 

De acordo com Carlos Capela, coordenador do curso de Engenharia Ambiental da Universidade do Estado do Pará (Uepa), esse líquido percolado pode escorrer e alcançar as águas superficiais, como igarapés, lagos e rios, e até mesmo infiltrar-se no solo, envenenando-o, e atingir as águas subterrâneas, comprometendo sua qualidade. “Todas as formas de vida e o meio ambiente podem ser afetadas direta ou indiretamente pela presença de matéria orgânica e inorgânica, metais pesados e substâncias recalcitrantes. Muitos elementos são essenciais para o crescimento de todos os tipos de organismos, desde bactérias até o ser humano, mas eles são requeridos em concentrações ideais. Em altas concentrações, podem danificar os sistemas biológicos”, explica.

Sendo assim, a elevada carga orgânica presente no chorume pode poluir as águas, lençóis freáticos (reservatórios de água subterrânea), rios, igarapés e lagos. Neste caso, pode haver contaminação de peixes, redução na disponibilidade de água para consumo, irrigação e lazer, além da poluição do solo, limitando a produção de alimentos e uso desse recurso. 

O chorume pode resultar até na contaminação do ar, em virtude da eliminação de gases provenientes da decomposição de resíduos. Tem também um grande potencial para atrair vetores de doenças.

INIMIGO NA VIZINHANÇA

Não é difícil imaginar que o chorume representa um eminente risco para uma cidade como Belém, onde o lixo é jogado em qualquer lugar. O perigo está em toda parte e muitas vezes não é percebido. O cidadão que descarta o lixo na rua não está causando um malefício somente ao meio ambiente. As consequências resultantes dessas atitudes se voltam para ele e toda a comunidade. Há anos, a cena se repete na avenida Visconde de Inhaúma, esquina com a travessa Barão do Triunfo, no bairro da Pedreira.

O canteiro central da avenida se transformou em um lixão. Certamente, aquele fétido odor que exala do local é sinal de que o líquido venenoso já está presente ali. 

“Jogam muita coisa podre aqui. Até fezes, animais mortos. Já virou caso de polícia. A Visconde, que é uma avenida ambiental, cheia de árvores, virou o segundo Aurá. O que me deixa mais perplexo é ver pais de família com seus filhos pequenos, já ensinando o que é errado. Idosos e outros moradores daqui mesmo jogam lixo. O odor que bate é insuportável. Há anos é assim”, afirma o teólogo e profissional liberal Lourival Melo, 59.

Lourival mora na esquina da avenida, de frente para o local onde a população despeja os resíduos. “Vem gente de muito longe. Já filmei gente até de carro importado parar aí para jogar lixo. Quando chove, toda a imundície vem para a frente da minha casa. Tenho uma neta de dois anos e a gente não fica aqui na frente. Além do mau cheiro, temo doenças. Quando ela vê alguém jogando lixo, diz ‘tem um homem jogando lixo’, porque a gente já ensina que não está certo. Me admiro dos vizinhos fazerem isso. Se a gente vai falar, eles reprimem. Viajo pelo Brasil todo e pelo o que conheço de outras cidades. Belém é a mais suja do país. Tenho orgulho de ser daqui, mas me envergonho da cidade ser assim”, lamenta o morador.

O coordenador do curso de Engenharia Ambiental da Uepa, Carlos Capela, acha possível que o chorume atinja até os mananciais que abastecem a Região Metropolitana de Belém (RMB), já que o solo do lixão do Aurá está contaminado com a substância tóxica. 

“É sabida a ligação de igarapés que passam no entorno do lixão, carream o chorume e deságuam no rio Guamá. Dessa forma, esse é um fator que precisa ser considerado, visto que a água é captada e enviada ao lago Água Preta, que por sua vez alimenta o lago Bolonha, que são responsáveis pelo abastecimento da Região Metropolitana de Belém”, disse.

REMEDIAR

Entretanto, segundo o pesquisador, existem formas para tratar o chorume e diminuir os impactos ambientais. “Apesar de muito complexo, podemos fazer isso através de processos químicos e biológicos convencionais utilizados no tratamento do chorume. Os primeiros costumam ser fundamentados em processos de adsorção e em rotinas de precipitação-floculação, que apresentam elevada eficiência de depuração. Entretanto, as substâncias contaminantes não são degradadas, o que necessariamente implica a geração de fases sólidas [lodos] altamente contaminados. Processos biológicos podem ser aplicados na forma de rotinas aeróbias, anaeróbias e facultativas. Podemos fazer a remoção dos resíduos, biorremediação e a recuperação parcial, que é a técnica mais recomendada do ponto de vista ambiental, bem como a impermeabilização do solo, a drenagem do chorume, a coleta e desvio das águas superficiais, controles da emissão e queima de gases, entre outras medidas”, lista Capela.

A Prefeitura de Belém tem um projeto para a desativação do lixão Aurá com a implementação de um aterro sanitário. Porém, Capela ressalta: o tratamento do solo do Aurá vai requerer contínuas ações corretivas a serem realizadas por vários anos, com o objetivo de remediar o problema. 

“Alguns milhões de reais serão necessários, pois vai depender de estudos locais e de que destino e tratamento serão dispensados a área, já que o chorume pode permanecer por décadas no solo mesmo após o encerramento do lixão”, esclarece o estudioso.

(Pryscila Soares/Diário do Pará)

 

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