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A hora de virar o jogo

29/06/2014

(Foto: Octavio Cardoso )

Atitudes novas podem fazer toda a diferença se você quer mesmo ajudar Belém a vencer a batalha contra o lixo: a diferença pode estar na geladeira de casa, no seu bolso, na rua ou até no vaso de plantas

Enquanto o consumo das sociedades antigas era baseado apenas na sobrevivência e manutenção pessoal, os resíduos produzidos eram absorvidos pela natureza. A partir do momento em que o homem começou a produzir e consumir coisas sem necessidade para sua sobrevivência, a figura do lixo surge, e a preocupação de lidar com ele também.

Com a revolução tecnológica e o início do consumismo - produção, aquisição e descarte descontrolado de bens - o problema se tornou crônico: o novo lixo tecnológico não pôde mais ser descartado da mesma forma que antes, e a natureza começou a dar sinais de desgaste. “O ritmo da sociedade consumista está além do que o planeta comporta. Em algum tempo não vamos ter nem de onde tirar matéria-prima para produzir mais nem destino para dar aos resíduos produzidos. Precisaríamos de uns três planetas Terra para manter esse ritmo”, alerta Patrícia Gonçalves, diretora da ONG ambiental Noolhar. Se o consumismo é um problema, uma nova mentalidade é necessária para superá-lo e essa mentalidade atende pelo nome de consumo consciente.

O consumo consciente, ou responsável, é um conceito desenvolvido nas últimas décadas. Ele envolve tomadas de decisões em compras e aquisição de bens e uma avaliação mais ampla dos impactos dessas ações. Nos últimos anos essa iniciativa ganhou o nome de Preciclagem. “A preciclagem sugere uma tentativa de combater os resíduos sólidos antes mesmo da sua compra, analisando os efeitos que esta pode ter”, explica Patrícia. Para ilustrar o conceito, ela sugere uma situação de compra de um televisor. “Você pode analisar vários pontos. Um dos mais importantes é se a empresa fabricante tem um programa para recolher e dar tratamento aos aparelhos após descarte, pois assim você resolve o problema do lixo tecnológico que uma TV quebrada geraria”.

Embora hajam vários critérios, Patrícia elenca alguns de maior destaque dentro desse conceito: avaliar a necessidade da aquisição, avaliar a responsabilidade ambiental da empresa e priorizar compras com empresas locais, onde você tem maior proximidade e oportunidade para reivindicar providências e soluções ambientais para os produtos. 

A preciclagem diminui a produção de resíduos, mas não os elimina. Para tornar a relação de consumo mais sustentável é necessário atentar para os “três erres” da sustentabilidade: redução, reutilização e reciclagem (veja box ao lado). “Todos produzimos resíduos e não vamos deixar de produzir. É preciso mudar a nossa relação com os resíduos, e essa mudança começa com cada um de nós. Se o poder público não faz sua parte, precisamos dar o exemplo e cobrar”, ressalta.

NOVAS ROTINAS

“Em Santa Catarina um motorista de ônibus me pediu para apagar um cigarro pra não incomodar os outros passageiros e orientou que eu guardasse no bolso e depois jogasse numa lixeira ou cinzeiro. Retruquei, achava que ele estava de brincadeira, mas aí ele me falou: ‘Amigo, olhe como está o chão do ônibus’, e e eu me dei conta que não havia sujeira nenhuma nele. Todo mundo fazia sua parte. Ali começou a minha preocupação cotidiana com o ambiente”, sorri o engenheiro florestal Antônio Balderramas, 56.

À época, no início dos anos 1980, ele era um estudante nos últimos anos do curso de Engenharia Florestal e estava à caminho de um encontro estudantil. “Me dei conta que muitas das discussões que a gente tinha sobre o ambiente podiam, e deviam, ser aplicadas à nossa rotina e comecei a tomar cuidados”, conta Antônio, cujo cotidiano é praticamente uma aula de sustentabilidade aplicada à economia doméstica. Em sua casa, o lixo tem três compartimentos – papel, plástico e metais e material para coleta seletiva do bairro. Alguns hábitos ecológicos do engenheiro causaram estranheza até na sua família. “Minhas filhas estranhavam eu levar sacolas plásticas de casa para o supermercado, mas é uma maneira de evitar que se gaste mais sacolas. Costumo andar com algumas na minha mochila, sempre que vou ao supermercado. Eu dispenso as sacolas novas”, justifica.

Material orgânico quase não é produzido, pois Antônio tem o hábito de aproveitar todas as sobras: “Faço um uso integral dos alimentos. Tudo que as pessoas tendem a desprezar, como casca de ovo, raízes e talos eu procurei receitas para aproveitar”, explica, dizendo que sempre mantém algumas sobras na geladeira por isso. O que não é consumido não vai pro lixo. Através de um processo simples de compostagem (ver box), Antônio mantém um belo jardim, mesmo no estreito corredor de seu apartamento na Marambaia.

“Com a compostagem as plantas crescem bastante, então também produzo muitas mudas. Nesse último mês distribuí cerca de 50, entre amigos e conhecidos. Todas plantadas em fundos de garrafa recortados, que foram reutilizados para servir como vasos”, ensina.

(Taion Almeida/Diário do Pará)

 

AGENTE DO BEM

OS MANDAMENTOS DE BALDERRAMAS

- O engenheiro florestal resolveu aplicar à rotina em casa o que importa à sustentabilidade:

- Separa o lixo em compartimentos para papel, plástico, metais e material de coleta seletiva do bairro;

- Leva sacolas de casa para o supermercado;

- Reutiliza o material orgânico produzido em casa: as sobras nutrem um jardim

CUIDE DO LIXO E MUDE SUA CIDADE

Incentivar o maior número de pessoas a debater novas ideias e a se envolver em ações, posturas, comportamentos e atitudes que ajudem a construir cidades melhores - combatendo problemas que estão ao alcance de todos, para além da intervenção do poder público - é o objetivo da campanha Agente do Bem. Engaje-se.

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