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Todo poder ao verbo reduzir

04/07/2014

(Foto: Arquivo )

Um terço dos resíduos que saem de sua casa e vão parar no lixão é de embalagens que poderiam sumir do mapa se você tivesse cuidados simples na hora de ir às compras. Escolha certo e mude isso agora 

Embora nem todos reciclem, o termo reciclagem é conhecido por muitos. Apesar de não conhecerem o termo, muitas pessoas realizam a reutilização no seu cotidiano - quando, por exemplo, utilizam um vidro de geleia de mocotó como copo. Mas o primeiro e mais eficiente ‘R’ da sustentabilidade – a redução – é ainda um dos menos visados.

A relação é simples e direta: quando reduzimos a quantidade de lixo produzido, menos precisará ser reciclado ou acondicionado em aterros ou lixões. A teoria dos ‘três erres’ da sustentabilidade o coloca no topo da cadeia, seguido da reutilização, para o material essencial que não puder ser reduzido, e da reciclagem – para o que não puder ser reutilizado. A redução esbarra, porém, em dois problemas de comportamento: consumismo e conformismo. 

Comprar materiais descartáveis, de vida útil pequena, parece uma opção mais prática em uma rotina de falta de tempo, mas isso esconde um custo pesado para o ambiente. “As refeições instantâneas, por exemplo, não precisam de preparo e em pouco tempo estão prontas para o consumo. Só que as embalagens dessas refeições se tornam um resíduo que a natureza não assimila, ao contrário de sobras de comida normais”, explica Patrícia Gonçalves, diretora da ONG Noolhar.

As embalagens, por sinal, representam um dos maiores desafios na questão dos resíduos sólidos. O Ministério do Meio Ambiente aponta que quase um terço de todos os resíduos sólidos domiciliares urbanos são embalagens.

VOCÊ É QUEM MANDA

O consumismo aparece como outro fator a comprometer a redução na produção de resíduos sólidos. “Quando as pessoas vão adquirir um produto, não costumam pensar tanto no uso dele. Será que existe a necessidade de trocar de celular toda vez que um modelo novo é lançado? Na prática não, mas as pessoas estão agregando outros valores às compras – pais sem tempo às vezes querem suprir a ausência com os filhos enchendo-os de presentes. O consumo se torna uma compensação para o afeto”, aponta Patrícia, que afirma que essa dinâmica forma crianças viciadas em consumir.

Para reduzir e fazer a sua parte, o cidadão precisa tomar a iniciativa. Ao contrário dos outros dois ‘erres’ da sustentabilidade, a redução não recebe o amparo de políticas públicas. O setor privado, no entanto, tem debatido o tema e desenvolvido algumas dinâmicas de redução de resíduos. Trocar copos descartáveis por canecas personalizadas para seus funcionários, tocar garrafões de água mineral por filtros e lâmpadas normais por modelos mais econômicos ou de vida útil maior são alguns exemplos sutis dessa transformação. “A redução é economicamente vantajosa, pois, ao deixar de consumir, você deixa de gastar. Mas, além do consumo interno, empresas têm começado a investir em produtos mais sustentáveis por conta da pressão dos consumidores. Quando uma empresa de cosméticos passa a oferecer seus produtos em refil, ela deixa de gastar com a embalagem e passa a lucrar mais com a venda do próprio produto”, aponta Patrícia.

PARAÍSOS NA TERRA

O despertar para a necessidade de uma rotina mais sustentável ocorre de diversas maneiras. Para algumas pessoas, é através de situações prosaicas; para outras, é por problemas de saúde. Mas, para o fotógrafo e designer Marcelo Vieira, 42, essa transformação contou com um toque divino. “Em 2002 eu me converti à Igreja Messiânica, cuja principal mensagem é construir um paraíso na Terra. Como a mensagem é de desenvolver uma vida integrada com a natureza e de ajudar o meio ambiente, eu passei a ver a necessidade de mudar meus hábitos cotidianos para torná-los mais sustentáveis”, justifica o fotógrafo.

Doze anos depois, as pequenas mudanças cotidianas apontam num cenário de transformação radical. Marcelo organiza seus resíduos para coleta seletiva, realiza compostagem com o lixo orgânico e mantém uma horta caseira – sem químicos e adubos – em sua residência. Também desenvolveu aparelhos para coleta de água da chuva, aquecimento da água utilizando a luz do sol e instalou painéis fotovoltaicos para utilizar energia solar na sua casa. “A economia foi radical. Nossa conta de luz caiu para menos da metade. Quase não pagamos conta de água porque quase toda água que consumimos é captada da chuva. Praticamente não produzimos lixo, porque quase tudo é reaproveitado. Às vezes até pego material desperdiçado por alguns vizinhos para reaproveitar”, comemora.

Mas o principal ganho nessa opção de vida veio na qualidade de vida. Marcelo afirma que a opção por uma vida mais orgânica, baseada no consumo reduzido de alimentos industrializados, tem feito um grande bem a ele e à sua família.

“A gente não adoece. Até cancelei meu plano de saúde. Minha filha nunca teve nenhuma doença mais grave que um resfriado, que com dois ou três dias de descanso ela cura. Às vezes vejo pessoas com metade da minha idade, mas com uma disposição física muito menor”, espanta-se o fotógrafo. 

A rotina sustentável também não implicou problemas com o tempo. “Dizem que é menos prático, mas eu não sinto impacto nenhum. Às vezes é até mais rápido. Quando quero fazer uma salada, vou à minha horta caseira e colho alguns legumes e verduras. Não preciso ir ao supermercado”. 

Para Marcelo, a dica para quem quiser começar uma rotina mais sustentável é, basicamente, querer transformar sua rotina.

“Quando se tem vontade de verdade, as soluções aparecem. A gente percebe que separar o lixo por categoria não é algo tão difícil e começa a se preocupar em trazer o verde e a natureza para dentro de casa, para o dia a dia. O resto vem aos poucos”, ensina Marcelo.

A ajuda está por aí. Marcelo recomenda tutoriais na internet. “Foi assim que eu aprendi a instalar painéis fotovoltaicos. Hoje, instalo também na casa dos outros.”

(Taion Almeida/Diário do Pará)

 

AGENTE DO BEM

OS MANDAMENTOS DE MARCELO

- O fotógrafo mudou a rotina em casa:

- Organiza e separa resíduos para coleta seletiva;

- Faz compostagem com o lixo orgânico e mantém uma horta caseira;

- Coleta água da chuva e aquece a água com luz do sol;

- Instalou painéis fotovoltaicos para usar energia solar em casa. 

 

CUIDE DO LIXO E MUDE SUA CIDADE

Incentivar o maior número de pessoas a debater novas ideias e a se envolver em ações, posturas, comportamentos e atitudes que ajudem a construir cidades melhores - combatendo problemas que estão ao alcance de todos, para além da intervenção do poder público - é o objetivo da campanha Agente do Bem. Engaje-se.

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