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A arte de reciclar

13/07/2014

(Foto: Everaldo Nascimento-Arquivo )

Pequenos cuidados com o lixo em casa fazem toda a diferença para que cadeias inteiras de reaproveitamento de vidro, plástico, latas, papel e outros materiais funcionem. Você pode mudar tudo

A reciclagem é um processo onde os resíduos sólidos sofrem um processo de transformação que os convertem novamente na mesma matéria-prima que os constituiu. Aquecer até derreter cacos de vidro para obter vidros novos após o resfriamento é um exemplo. Apesar dos inúmeros benefícios econômicos e ambientais, como a redução de gastos com matéria-prima virgem, energia e água, a reciclagem ainda tem uma abrangência pequena no país. Segundo o governo federal, apenas 10% do total de lixo produzido é reciclado e apenas 18% da população têm acesso a programas de coleta seletiva.

O prejuízo econômico é da ordem de R$ 8 bilhões anuais por conta de materiais não reciclados, mas esse valor não leva em conta os benefícios do impacto ambiental positivo da reciclagem. “Com a cadeia completa teríamos o paradigma da sustentabilidade. Com menos lixo nas ruas teríamos menos problemas com pragas e melhorias no saneamento com o fim dos alagamentos. Ganharíamos qualidade de vida, teríamos menos gastos na saúde e ainda teríamos uma rede de emprego e geração de renda com as fábricas de reciclagem e cooperativas de catadores. Mais empregos representam mais arrecadação para os municípios, e assim mais recursos para investimento. Todos ganharíamos”, explica Renata Quemel, especialista em Logística Ambiental.

Atuante no Centro de Estudos e Aplicações em Meio Almbiente (Cealma), Renata trabalha diretamente com o desenvolvimento de logísticas ambientais sustentáveis e observa a situação da reciclagem no Pará como limitada. “A logística ainda é o principal problema. Por não ter estrutura adequada para armazenagem, muitos catadores não recolhem certos tipos de resíduos, como o óleo. Além disso, a destinação final da matéria-prima, que seriam as fábricas de reciclagem e empresas que compram para reciclar, é muito distante. Quase sempre o material vendido vai para fora do Estado, o que obriga as cooperativas a gastar com veículos de carga para o transporte – aumentando o custo e desestimulando o negócio”, aponta Renata.

As mudanças previstas com a entrada em vigor do Plano Nacional de Resíduos Sólidos são uma esperança de mudança no patamar, mas a especialista em logística ambiental lamenta a falta de conhecimento da lei pela população e empresas. “Talvez a partir do momento em que a lei estiver em vigor e multas e sanções começarem a ser aplicadas, as empresas desenvolvam seus planos de reciclagem e coleta seletiva. Do poder público sentimos a falta de campanhas de educação e conscientização ambiental, além de estímulos às cooperativas de catadores. A construção de ecopontos seria um passo fundamental para isso”, lembra Renata. Ecopontos são grandes compartimentos desenvolvidos para abrigar de forma adequada e separada resíduos específicos – metal, papel, plástico e pilhas e papel -, para serem recolhidos e levados à reciclagem.

A falta de estímulos do poder público não impede, no entanto, que alguns cidadãos tomem a medida de separar o lixo para coleta por conta própria. “Há cerca de dois anos, quando me mudei para cá, conheci um grupo que realizava a coleta nas ruas do bairro e pedia para fazer uma separação de papel e plástico. Não tinha o hábito, mas via que era uma ação tão simples que poderia fazer a diferença para quem pedia. Então, passei a fazer a separação”, explica a bibliotecária Joana Chaves, 42, moradora do bairro da Marambaia. Além de plástico e papel, Joana também separa as latinhas de alumínio. “Sempre tem alguém pedindo, não me furto a colaborar”, explica. Ela lamenta que a coleta seletiva do bairro às vezes seja um tanto irregular, o que faz o material separado ir para o lixo comum, mas não abre mão da separação. “A minha parte eu sei que eu fiz”.

TRABALHO TRANSFORMADOR

Pelo depoimento de Joana, é possível ver como a figura do catador é importante na cadeia do processo de reciclagem. A nova política de resíduos prevê o fomento e estímulo à atividade desses profissionais, mas infelizmente essa é uma realidade ainda distante do dia a dia dos trabalhadores de Belém. “A situação é de muitas dificuldades. De um lado, lidamos com muito preconceito do público com a profissão; do outro lado, ainda não temos o apoio das empresas para realizar uma coleta regular dos resíduos – algo que seria bom tanto para eles como para nós”, afirma o catador Jonas de Jesus da Silva, 46.

Jonas concilia a rotina de catador com a de presidente da Concaves, cooperativa de catadores sediada no bairro da Terra Firme, que ele ajudou a fundar há nove anos. “Procuramos a organização para dar uma qualidade melhor de vida aos catadores e estruturar o trabalho. Hoje, a Concaves reúne 31 famílias e desenvolve projetos de coleta nos órgãos federais e em diversas áreas do bairro”, explica Jonas. Dentro da cooperativa, os cooperados são livres para organizar sua rotina de trabalho e seus trajetos. Geralmente no fim da semana, os catadores se encontram para fazer a triagem e encaminhar o material recolhido para a compra, rateando o valor entre todos. “O valor que cada um recebe varia bastante, depende do material recolhido. Chega a dar mais de R$ 200 às vezes, mas muitas vezes também o valor fica em menos de R$ 30”.

Mas as durezas da realidade de catador não intimidam o dirigente da cooperativa. “Apresentamos o projeto Procatador para o governo estadual, que estimularia cooperativas de catadores em todos os municípios do Estado. Vamos esperar uma resposta”, comenta com o pessimismo de quem, em nove anos de atividade, pouco teve de suporte do poder público. Ainda assim, Jonas defende o poder transformador do trabalho. “Temos uma colega que, quando começou a trabalhar conosco, passava por uma situação muito difícil. Mãe solteira de dois filhos e com a autoestima muito baixa, sofrendo muito preconceito. Nesse período de dois anos, ela passou por uma mudança incrível. Hoje, além da autoestima recuperada, ela melhorou as condições de vida da família e conseguiu entrar no ensino superior! E continua conciliando essa rotina com o trabalho de catadora”, aponta orgulhoso Jonas.

(Taion Almeida/Diário do Pará)

 

AGENTE DO BEM

OS MANDAMENTOS DE JOANA CHAVES

- A bibliotecária resolveu mudar hábitos simples em casa para começar a ajudar catadores que formam a cadeia da reciclagem; 

- Passou a separar em casa o lixo de uma maneira a facilitar a coleta de cada tipo de material;

- Ela não se importa se às vezes o material que separou acaba indo parar misturado no caminhão do lixo. Para ela, o mais importante é que está fazendo a sua parte.

 

CUIDE DO LIXO E MUDE SUA CIDADE

Incentivar o maior número de pessoas a debater novas ideias e a se envolver em ações, posturas, comportamentos e atitudes que ajudem a construir cidades melhores - combatendo problemas que estão ao alcance de todos, para além da intervenção do poder público - é o objetivo da campanha Agente do Bem. Engaje-se.

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