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Lixo é dinheiro

19/07/2014

(Foto: Adauto Rodrigues/Arquivo )

As cooperativas de catadores crescem e dão lições de senso de oportunidades à véspera das novas regras da Política Nacional de Resíduos Sólidos: esse trabalho nobre mostra como conciliar geração de renda e um futuro melhor à vida nas cidades

Os benefícios gerados a partir do trabalho realizado pelas cooperativas de catadores vão muito além do fato de reduzir a quantidade de resíduos recicláveis que poderiam ir parar junto ao lixo comum. Isso porque essa classe trabalhadora exerce dois papéis fundamentais dentro da sociedade: eles são multiplicadores da consciência ambiental entre os demais cidadãos e também são responsáveis por movimentar a economia local, comercializando esses materiais recicláveis dentro das indústrias e até em pequenos comércios, gerando empregos e renda.

É dessa forma que pelo menos 240 membros da Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis Visão Pioneira, de Icoaraci, tiram o sustento de suas famílias. A cooperativa é mais uma entre várias que estão finalizando seus processos para formalizar seu funcionamento. “Estamos tirando CNPJ e alvará de funcionamento para garantir nossos direitos. Com um cadastro no BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] vamos poder fazer nossos próprios financiamentos e o banco passará a pagar nossos consultores”, explica a presidente da cooperativa, Nádia da Luz Alves da Silva.

AS BOAS SEMENTES

A associação de catadores que formou a cooperativa existe há sete anos. Entretanto, abriga alguns trabalhadores que já exercem a atividade há mais de 40 anos. Atualmente, a cooperativa comercializa materiais como garrafa pet comum, além da branca verde e azul, óleo proveniente de alimentos fritos e assados, sebo, osso animal, papel comum, misto e papelão, plástico do tipo resistente, como da sola de sapato e do fio de telefone, cobre, ferro e alumínio, madeira, aterro de construção e ainda roupas usadas.

“A triagem é feita em locais cedidos. A gente faz a coleta seletiva e seleciona os materiais que serão vendidos para as indústrias que trabalham com reciclagem. Mas não fazemos a higienização devido à falta de estrutura. Também negociamos com pequenos comércios, como a madeira que vendemos ou trocamos pelo pão nas padarias e as roupas usadas que comercializamos. Enchemos um garrafão de 40 litros e mandamos para a indústria que transforma o óleo e aquele sebo do osso ou do churrasco em sabão. Já o plástico duro vira carteiras de escolas, acabamentos de computadores, baldes, máquinas de lavar e até impressoras. O alumínio vai para a armação de óculos e serve até para confeccionar joias”, explica Nádia.

A versatilidade do trabalho de reciclagem não para por aí. Nesse ponto ao qual chegamos já podemos imaginar o valor que pode ser agregado a muitas coisas que costumamos simplesmente “jogar fora”. As garrafas pet e de água sanitária, por exemplo, são destinadas às indústrias que reciclam os resíduos e os transformam no mesmo material. E os papéis coletados viram papel reciclado. “Ainda faltam algumas indústrias no Pará. Quando não tem, a gente pega o material e vende para fora do Estado. Antes esses tipos de materiais eram incinerados. Agora, não”, comemora a catadora.

TRABALHO DO FUTURO

De acordo com Nádia, os catadores não estão somente preocupados com o aspecto financeiro. Eles buscam cada dia mais saber qual será a destinação final de cada material reciclado para passar adiante o conhecimento adquirido e, assim, propagar a conscientização ambiental diretamente à população. “Batemos de porta em porta em Icoaraci e em outros pontos ligados à cooperativa, nas Ilhas de Cotijuba e Outeiro. Ensinamos os moradores a fazer a seleção dos materiais e explicamos a importância disso”, assegura.

O empenho se reflete no êxito com que o trabalho tem sido desenvolvido. E a tarefa poderá ir muito mais longe quando o poder público começar a fazer a sua parte na capital e em todo o Estado. “Trabalhamos por quinzenas, pois os locais são a céu aberto. Então, não podemos ficar muito tempo com os materiais expostos. O nosso galpão ainda não foi entregue pela prefeitura de Belém, que também deveria ter cedido um caminhão. O caminhão que utilizamos para coletar os materiais veio do governo federal”, cobra Nádia.

A burocracia para garantir direitos assegurados às cooperativas também é outro obstáculo a ser vencido. Um exemplo é o Termo de Ajuste de Conduta de Resíduos Sólidos (TAC-RS) firmado no dia 3 de abril de 2013 pela Prefeitura de Belém junto ao Ministério Público do Estado do Pará (MPPA). “O trâmite é muito demorado. A prefeitura adiou a licitação que iria firmar salários, organizar contratos com cooperativas, além da cessão de galpão e de caminhão”.

ELOS DA CADEIA

A cooperativa Visão Pioneira, de Icoaraci, possui cadastro em várias indústrias e também com locais que podem ceder materiais semanalmente. E, a partir de agora, de 15 em 15 dias, todo tipo de material produzido dentro do campus Belém da Universidade Federal do Pará (UFPA) também será recolhido por eles e por outras cooperativas que já são cadastradas. É que a instituição realiza um trabalho de coleta seletiva e cadastra cooperativas selecionadas para receber os resíduos que são produzidos em todas as dependências da universidade. O sistema de coleta foi originado em 2006, quando o decreto 5.940, do governo federal, determinou a implantação do sistema em todos os órgãos públicos federais do país.

“Na semana do calouro, a prefeitura [da UFPA] faz um trote aproveitando todo o material em papel, como livros e apostilas. Já chegamos a arrecadas uma tonelada e meia de materiais. Fazemos isso para que desde o início o aluno tenha essa visão de responsabilidade como cidadão assim que entra numa universidade pública. Além dessa, fizemos uma campanha indo atrás de todos os cursinhos da Região Metropolitana de Belém, mas só um cursinho se interessou em dar a destinação correta do material que seria descartado. Só com isso arrecadamos quatro toneladas de papel”, lembra a técnica da Coordenadoria de Meio Ambiente da Prefeitura da UFPA, Lúcia de Fátima Almeida.

A ideia da coordenadoria agora é ir pessoalmente ao encontro desses cursinhos para tentar despertar o interesse desses locais em contribuir com as cooperativas e, principalmente, com o meio ambiente. “Para você ver o tamanho do nosso interesse em colaborar com as cooperativas: queremos mostrar que há a possibilidade de agregar a educação ambiental até como uma forma de propaganda dos cursinhos”.

ECONOMIA PARALELA

Na Cooperativa de Catadores Visão Pioneira a divisão dos lucros obtidos com a comercialização dos resíduos é feita por igual para cada cooperado. “O faturamento chega a R$ 1.500 por quinzena, para cada grupo de quatro ou cinco trabalhadores. Em um mês, chegaria a R$ 3 mil. Desse total, os cooperados tiram uma parte para custear os gastos da cooperativa, como água, luz telefone, além do pagamento dos nossos consultores. O restante vai para as famílias”, esmiuça Nádia Silva.

Os profissionais que prestam consultorias para a cooperativa são advogados, contadores que fazem a prestação de contas da entidade, pedagogos e projetistas que fazem a ponte com todos os locais onde a cooperativa tem interesse em se cadastrar. Através da mídia, a cooperativa conseguiu convênio com creches e escolas para abrigarem os filhos dos cooperados. 

Somente dois caminhões, um do tipo caçamba e outro truck, fazem o recolhimento dos resíduos coletados pelos catadores da cooperativa, assim como em outras áreas da cidade. Os trabalhadores garantem que a quantidade é insuficiente em vista da demanda de coletas. Muitas deixam de ser realizadas, o que significa que renda também deixa de ser gerada. “É difícil fazer a retirada do material. Quando estamos sem o caminhão, que fica com a prefeitura, não temos carro nem local para guardar. Assim vamos só na vizinhança. Falta o Estado e o município fazerem sua parte”, diz Nádia.

“O que hoje é jogado no lixo para nós é ouro. É como tirar das nossas mesas, é o sustento da minha família. No lixão [do Aurá] não existe educação ambiental. Lá já atropelaram todas as leis, pois o correto é o catador ir de casa em casa e conscientizar. O chorume está contaminando os lençóis freáticos. Está matando. A água que vai para as nossas casas está contaminada. Está trazendo doenças. Os catadores e as crianças estão sendo mutilados. Então, os catadores e todas as pessoas precisam se conscientizar disso”.

(Pryscila Soares/Diário do Pará)

 

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