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Um coração de lata

20/07/2014

(Foto: Renato Stockler/FolhaPress )

O Brasil hoje é o campeão na reciclagem de latas de alumínio em todo o globo. Muito desse mérito vem das mãos de catadores de latas, empresas e até artistas que apostam na destinação correta do lixo como fonte de renda e de qualidade de vida

Além de oferecer o entretenimento, a ficção do cinema também pode servir de indicador para destacar imagens do que irá acontecer daqui a anos ou décadas, como um documento vivo do futuro. No filme de animação “Wall-e”, da Disney e Pixar, a história se inicia num ano qualquer de um futuro hipotético não tão distante e tem como cenário principal a Terra, praticamente desabitada. Nosso planeta é apresentado como grande depósito de lixo, no qual o personagem principal é um robô, que trabalha para compactar e organizar o entulho deixado pelo homem. Nesta ficção, os seres humanos partiram para o espaço: eles vivem a bordo de uma estação espacial, acomodados, já que seus antepassados foram incapazes de lutar pelo planeta, deixando para trás todo o lixo de gerações. É um alerta para a responsabilidade de cada um, e o quanto pode ser feito com ações concretas e coerentes. 

O alumínio é o terceiro elemento mais abundante no planeta e pode ser encontrado em diversos produtos do nosso dia a dia. A produção do alumínio começa com a matéria-prima bauxita, que depois de retirada do solo passa por diversos tratamentos até se converter em óxido de alumínio (alumina). De acordo com dados do Sindicado das Indústrias Minerais do Pará (Simineral), o Estado é o primeiro colocado do país em produção de bauxita, com 85% do mercado. 

Segundo a Associação Brasileira de Alumínio (ABAL), cerca de 98% das latinhas de alumínio utilizadas no Brasil são recicladas, aproximadamente 20 bilhões de unidades por ano. O país é recordista mundial na reciclagem deste material desde 2001. 

MOEDA NOVA

Apesar dos números parecerem positivos, o coordenador da ONG Noolhar Marcos Wilson explica que a reciclagem de latinhas representa uma moeda social e que muitos ainda não conhecem os processos de reciclagem. “Alguns catadores pegam as latinhas não para fazer a coleta seletiva. Eles reviram todo o lixo e o deixam espalhado para trocarem por dinheiro, sem ter consciência ambiental. É uma concorrência desleal para quem trabalha exclusivamente com a coleta seletiva, e isso é preocupante demais”, afirma Wilson. 

Um dos pontos que Marcos destaca é o paradoxo de produção no mercado paraense. “Nosso Estado é o maior produtor de matéria-prima, mas as empresas não investem em reciclagem aqui. Assim vemos vários caminhões transportando materiais recicláveis para o centro-sul e depois, quando o produto volta, nós acabamos pagando muito mais caro”, esclarece. 

Para o membro da ONG, a reciclagem é o futuro do planeta e as pessoas precisam estar mais informadas sobre o processo de reciclagem. “Não é preciso ter várias lixeiras coloridas em casa, basta separar o que é reciclável e o que não é. Se cada um fizer sua parte, já vai fazer a diferença e vamos sair da zona de conforto”, pondera Marcos. 

Aumentar a conscientização da população a respeito da reciclagem e informar sobre a importância do alumínio para um futuro mais viável para esta geração e as próximas é o objetivo da companhia global de alumínio da empresa Hydro, que chegou a Belém em 2013. 

Segundo a diretora de relações institucionais e comunicação da Hydro no Brasil, Andrea Reis, uma das principais ações da empresa foi a instalação, em outubro de 2013, de dez coletores gigantes na Praça Santuário e no Arraial de Nazaré para receber latas vazias durante o Círio. “Temos coletores espalhados pela cidade e em alguns centros de ensino superior de Belém. Todo o material recolhido é convertido em renda para as famílias da Rede Recicla Pará [Rede de Economia Solidária dos Catadores de Materiais Reutilizáveis e Recicláveis do Pará],”.

A coleta seletiva de lixo e a conscientização da população para separar os resíduos, antes de descartá-los podem aumentar não apenas a reciclagem como também trazer melhorias na qualidade de vida de todos. “Infelizmente no Pará não existe nenhuma instituição que recicle o alumínio, mas é fundamental levarmos em consideração a coleta seletiva. O alumínio que for destinado corretamente irá se converter em uma infinidade de novos materiais, sem perder nenhuma propriedade. E um dado ainda mais relevante é que para reciclá-lo são necessários apenas 5% da energia originalmente usada na sua produção”, aponta Andrea. 

OPORTUNIDADES

Esse é o tipo de pensamento que alimenta a vida de Rachel Linhares. Há 12 anos ela trabalha com a reutilização de material reciclável e atesta: o lixo hoje virou luxo. “Depois de ter ficado desempregada, procurei algo que pudesse me dar uma renda e percebi que jogamos muitas coisas no lixo que poderiam ser reutilizadas. Comecei a fazer vários objetos decorativos assim”, conta Raquel. 

Ao exigir que se aprendesse sobre os processos de reciclagem, reutilização e reuso, o trabalho artesanal de Rachel ficou valorizado. Por mês ela consegue tirar uma renda de até R$ 1.500. “Tenho a oportunidade de mostrar meu trabalho e também de ensinar através de oficinas. É um trabalho gratificante e me sinto realizada quando vejo que as pessoas colocam decorações recicláveis em suas casas. Muitos nem sabem que são feitos como, por exemplo, potes de café”, sorri. 

Criatividade e doações são fundamentais para o trabalho de pessoas como a Rachel. “Eu sobrevivo de doações. Recebo muitas, e o lixo de muita gente acaba virando artigos como cofres, vasos, porta-retratos, jogos infantis e outros. Quando recebo uma doação já fico imaginando o que de diferente poderei fazer”, diverte-se.

(Bruna Brabo/Diário do Pará)

 

AGENTE DO BEM

OS MANDAMENTOS DE RACHEL

- A autônoma Rachel Linhares há 12 anos trabalha material reciclável para fazer objetos de arte;

- Ela hoje sobrevive da atividade e acha seu trabalho gratificante;

- Além de garantir renda própria com os recicláveis, ela ainda partilha seu conhecimento com oficinas para outras pessoas. 

 

CUIDE DO LIXO E MUDE SUA CIDADE

Incentivar o maior número de pessoas a debater novas ideias e a se envolver em ações, posturas, comportamentos e atitudes que ajudem a construir cidades melhores - combatendo problemas que estão ao alcance de todos, para além da intervenção do poder público - é o objetivo da campanha Agente do Bem. Engaje-se.

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