NOTÍCIAS

Sonhos no papel

27/07/2014

(Foto: Adauto Rodrigues/Arquivo )

Hoje o papel e o papelão correspondem a mais de 45% do peso de tudo que é reciclado no Brasil e são os mais facilmente processados: dar destino adequado a esta dupla reduz custos, ajuda a melhorar as cidades e ainda abre portas a negócios

O papel e o papelão são os materiais recicláveis mais visados da coleta seletiva no Brasil. Juntos eles correspondem a 45,9% do peso total de tudo que é reciclado no país e a maior parte dos papéis pode ser reaproveitado para reciclagem com um rendimento muito bom, dependendo da qualidade da fibra de papel. O processo de reciclagem também apresenta muitas economias em relação ao de fabricação de papéis novos. Enquanto uma tonelada de papel novo gasta cerca de 100 mil litros de água, uma tonelada de papel reciclável gasta cerca de 2 mil litros. O gasto de energia é reduzido pela metade. Dentre os processos de reciclagens de materiais, é o mais barato e pode ser feito de forma artesanal – para gerar certos tipos de folha de papel. Postas todas essas vantagens, parece uma saída lógica que o Pará invista em fábricas de reciclagem de papel. Mas, infelizmente, essa é uma realidade que o Estado ainda desconhece.

“Não existem fábricas de reciclagem de papel no Pará. Temos algumas ações pontuais, mas como boa parte dos materiais de reciclagem, o que nós vemos é um processo de venda para empresas que compram no nordeste e sul-sudeste”, explica o ambientalista José Oeiras, membro do Comitê Pará da ONG Ação da Cidadania, onde coordena o departamento de educação ambiental. Oeiras identifica que faltam estímulos ao trabalho de coleta, como o serviço de logística reversa – o empresas serão obrigadas a disponibilizar, segundo o Plano Nacional de Resíduos Sólidos.

Apesar da situação atual não ser muito animadora, José espera melhorias nos próximos anos. “Participei da comissão executiva da Conferência Ambiental estadual e nacional. Estamos muito atrasados em relação a outros municípios, especialmente do sul do país, mas vimos que está acontecendo uma sensibilização para o tema. Foram firmados pactos para investimento de construção de infraestrutura, fábricas e centros de triagem, para a partir de 2016. Até lá, ainda há muito a ser feito”, comenta o ambientalista.

NEGÓCIOS

Embora a ausência de fábricas de reciclagem atrapalhe o desenvolvimento de uma cadeia completa de reciclagem do papel, o comércio da matéria-prima é bastante visado pelas cooperativas de catadores. Seu valor de mercado não é tão grande quanto o alumínio, mas é praticável. “Temos uma empresa em Belém, a Riopel, que compra papel para reciclagem. Os valores variam conforme o tipo, branco, misto – de várias cores - ou papelão. Por semana costumamos recolher sete toneladas de papel misto e seis de papel branco”, contabiliza Rosenildo Ribeiro, diretor financeiro da Associação dos Catadores de Coleta Seletiva de Belém, a ACCSB.

A cooperativa conta atualmente com 45 cooperados e desenvolve convênios com escolas, gráficas e outras empresas para coleta seletiva do papel. “Não trabalhamos apenas com papel. Também coletamos metal, alumínio e outros materiais. Mas pelo volume grande, o papel é muito importante para o nosso trabalho”, explica Rosenildo, dando conta que os 45 cooperados da associação conseguem por semana aproximadamente R$ 100 cada um. As condições para fazer o trabalho de coleta, no entanto, ainda são muito complicadas. “O convênio que nós temos com a prefeitura nos promete cinco carros para o transporte. Geralmente recebemos apenas um. Às vezes nem equipamento de segurança recebemos. Ainda falta uma compreensão da importância dos catadores. Quantos lixões do Aurá nós teríamos mais se não houvesse o nosso o trabalho?”

NOVAS ROTINAS

José Augusto Belmont tem 27 anos e trabalha numa gráfica no bairro da Pedreira. Sua vida não tinha muitos luxos, mas era relativamente tranquila com o que recebia no seu trabalho. 

As coisas mudaram um pouco quando o primo de José, Bruno Belmont, se mudou para sua casa. “Ele tinha 17 anos, morava com a nossa família em Capitão Poço, mas pra continuar os estudos, tentar uma faculdade, precisou se mudar pra Belém. Como eu morava aqui, me pediram pra receber ele na minha casa. O que sobrava, pra mim sozinho, já não sobrava tanto com a companhia”, conta o gráfico.

Os custos aumentaram. O primo veio com a intenção de ajudar, mas, muito novo e sem muitas qualificações, não conseguiu trabalho e passava boa parte do dia apenas estudando. “Ele é um menino inteligente, não queria que ele comprometesse os estudos pra trabalhar. Acho que ele pode conseguir uma vaga na universidade se continuar estudando. Mas precisávamos ganhar mais para as contas fecharem”, explica José que subitamente teve uma ideia: porque não lucrar com as sobras do trabalho na gráfica?

De noite Jorge passava com o carro de José na gráfica e recolhia as sobras e material não aproveitado. Todo dia, durante uma semana. Na primeira folga do primo gráfico, a dupla se reunia para organizar e separar os papéis para em seguida levar para vender. “Sacrifiquei algumas folgas minhas, mas não me importei. O que nós arrecadávamos em um mês, cerca de R$ 300 a R$ 400, pagava os gastos extras. Com a nossa rotina não dava pra fazer um trabalho de catador, mas dava pra sacrificar um pouco de tempo para ganhar dinheiro com algo que ia para o lixo”, explica José.

Orgulhoso, o primo mais velho afirma que o senso de responsabilidade de Jorge cresceu com o trabalho. “Quando ele chega mais cedo leva o carro para recolher em outra gráfica, onde um amigo nosso também trabalha. Hoje em dia, com uma folga maior nas finanças, dá pra planejar umas aulas de reforço, ou um cursinho de férias. É um investimento no futuro e, ao mesmo tempo, eu fico feliz de diminuir a quantidade de lixo que o meu trabalho produz”, sorri o primo mais velho.

(Taion Almeida/Diário do Pará)

 

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